segunda-feira, 2 de julho de 2012


Madame Butterfly

... estava linda como sempre.... Vestido verde de organdi, esvoaçante, capeline amarela com uma flor ton sur ton e cheia de luz. Conhecia-a desde há muitos anos do café Magestic, mas apenas trocávamos um leve cumprimento. Sempre a vira vestida de uma maneira pouco usual,  diria mesmo fora de contexto, apesar do extraordinário requinte e bom gosto. Apoiada na sua habitual bengalinha de castão de prata, reparei que, naquele dia,  não me parecia bem. Ofereci-lhe o meu braço; agradeceu com o olhar e acrescentou: as pessoas vêm-me como se eu fosse uma ave rara, mas nunca se aproximam de mim... Levei-a ao hotel; sabia que morava já ali, no Grande Hotel no Porto, aquele antigo hotel cheio de encanto, de que eu nunca me cansava de olhar, como nunca me cansava de olhar, também, para ela. Chegadas, apercebi-me do carinho com que a recebiam nas breves palavras que trocaram. Pediu-me que a acompanhasse ao quarto. Nem queria acreditar que ia poder estar com aquela senhora misteriosa, de que apenas conhecia de ver passar com aquelas roupas anos 30, 40 e a que o repetido uso emprestava ainda mais encanto e magia. Quando passei a porta julguei estar a entrar num cenário das mil e uma noites... uma cama francesa aconchegada com uma manta de pele, muitos tapetes prontos a voar, muitas almofadas dispersas; como mesa de cabeceira uma mesinha redonda, coberta com um lenço florido de seda natural, com as franjas roçando o chão. Em cima várias moldurinhas de prata com fotografias e um terço  madre pérola; uma jarrinha de rosas perfumadas compunha aquele cantinho de sonho. Um grande e valioso espelho pousado no chão. um Uma cómoda , uma imagem da Virgem, muito antiga, uma taça de cristal cheia de colares, várias caixinhas, uma pequena vitrine cheia de flores de pano e muito, muito mimo à mistura. - : Um pechiché todo como os espelhos venezianos, vestido com uma longa saia em folhos de tule, forrados a seda selvagem... Lá pousavam frascos de perfume multi coloridos, pentes, estojo de unhas e escovas de vários tamanhos e destinadas a várias funções, tudo em prata... Um enorme guarda vestidos com oito portas todas espelhadas...duas delas estavam entreabertas... Olhar para dentro foi irresistível... todas  roupas, cheias de cor, parecendo prontas para serem passadas na mais chique e elegante passerelle, do maior costureiro francês. Em frente a uma das portas também espelhadas estava um criado-mudo. Pendurado um smoking negro. Dentro via-se uma camisa casca de ovo, branca, impecávelmente passada, um laço e uma faixa negros....As paredes estavam pejadas de fotografias; por cima da cama, três, chamaram especialmente a minha atenção uma, com um homem ainda novo e bonito, sentado num carro descapotável, outra com uma senhora, a subir as escadas dum qualquer dos Hotel Paris, como  só as grandes capitais têm, olhando para trás, cheia de repórteres aos seus pés; uma terceira era uma fotografia da capa da Vogue a cores, contrastando com as outras a p&b, com uma mulher lindíssima, cheia de glamour. Por baixo, um título - Madame Butterfly... Convidou-me a sentar num sofá de veludo que fora já mais rosa. Sentou-se no que seria talvez sempre o seu, junto à janela; tinha uma manta de viagem e um banquinho estufado onde certamente estenderia as pernas, as suas pernas magrinhas, onde, por baixo das meias de vidro, apenas se viam apenas ligaduras... Ao lado, um móvel de rádio e gira-discos, de tampa levantada, onde estava posto um vinil long play. Pouco depois serviram-nos um chá, em tête-à-tête de prata....tomou vários comprimidos e disse, sempre sorrindo, que sentia que o seu fim estava próximo... 
Vejo que está cheia de curiosidade na minha pessoa, disse-me sempre sorrindo. O seu rosto irradiava beleza, serenidade, paz...reparei no cuidado com que estava pintada, embora se notasse que a sua mão já não era certa, que os traços estavam tremidos e o baton um pouco borratado... Desejei um dia ser assim, mesmo que, como acontecia como  ela, as pessoas, más e destituídas de qualquer sensibilidade, se rissem ao passar ao meu lado... -:Vou falar-lhe um bocadinho de mim. Como já reparou estou rodeada e vivo de recordações. Procuro continuar a viver como no dia último, o dia de antes daquele dia, em que tudo acabou... -: Sabe, começou, tive uma vida cheia, tive uma infancia feliz, uma juventude deliciosa; como mulher amei e fui amada pelo homem mais encantador que pode ter havido. Juntos percorremos o Mundo. Chegávamos a ir do Brasil, do mais intenso calor, até à Noruega gelada, sem um único agasalho. Quando lá chegávamos, íamos divertidos, tiritando de frio, às lojas de moda comprar tudo o que nos faltava e nos apetecia. Saíamos carregados de embrulhos, corríamos pelas ruas, tal como nos filmes românticos, em que tudo é côr-de-rosa.  Faziamos autênticas corridas nas curvas de Monte Carlo. Uma vez fecharam o último andar da Torre Eiffel para que festejássemos sózinhos o dia em que nos conhecemos. Navegamos na rússia, ao som d ´"Os Barqueiros do Volga" e embarcamos no Expresso Oriente, entre planícies, serras e muitos pores-do-sol...  Passeamos no deserto, em plena Seará e dormimos numa tenda, sob as estrelas... Na India fomos recebidos nos melhores palácios. Na China tomei chá nos mais belos jardins suspensos, entre pétalas de flores e murmúrios de águas. Banhei-me nas águas do Mar Morto e nas transparentes águas das Seychelles, ainda selvagens... Quebramos gelo na Antártica , onde me lembro de termos salvo um pequeno urso, que estava ferido. No Havaí vestimo-nos de flores e no Egipto fomos Cleópatra e António. De sonho em sonho, fomos construindo o nosso castelo encantado... tudo era perfeito... tudo parecia ter sido inventado para nós. Vivíamos um para o outro, tínhamos tudo, amor, dinheiro, amigos, éramos jovens, bonitos e o Mundo era nosso!....
Um dia, naquele dia, eu sabia que o André, o grande e único amor da minha vida, ia pedir-me em casamento.. Está a vê-lo naquela fotografia, por cima da minha cama? e ali, em cima da cómoda, nós os dois? Estávamos em Nápoles, no Constantinopli...creio que ainda existe... Íamos jantar junto ao mar, junto de todo aquele imenso e belo azul, que é o Mediterraneo... Eu estava quase pronta, escolhera um vestido branco para aquela ocasião que eu esperava há já algum tempo... faltava-me apenas pôr o colar de brilhantes, que ele me oferecera. Tinha pedido para mo trazerem do cofre. Bateram ao de leve à porta do quarto. Fui abrir, era o gerente que me vinha trazer o meu colar...mas não trazia nada na mão e, ao contrário de sempre, não tinha o seu habitual sorriso...o meu primeira pensamento foi para que o colar tivesse desaparecido... -: Madame... começa ele, com a voz a tremer e a falhar....não tenho uma boa notícia para lhe dar... - :mas, Signore Paolo, como é possível que o colar tenha desaparecido??  como? como? -:Madame, não se trata do colar...Monsieur Thierry teve um acidente e, como lamento dizer-lhe... não resistiu...Não me recordo de mais nada a partir desse momento...apenas me lembro de ter acordado numa cama de hospital... tinha já sido o funeral...não pude sequer despedir-me dele, acompanhá-lo à sua última morada. Recordo-o a sair da porta do nosso quarto, com aquele sorriso incomparável, atirando-me um beijo com as pontas dos dedos e dizendo que me queria especialmente linda nessa noite....
Não sei como nem quando, voltei a Paris, onde tínhamos sido tão felizes!!!...Durante vários anos não saí de casa, da nossa casa...o meu cabelo embranqueceu e os meus olhos secaram de tantas lágrimas choradas horas a fio... apenas recebia meia dúzia de amigos a quem não podia recusar companhia... Pensei em suicídio, em professar... Um dia resolvi sair e voltar. Vivo aqui há mais de 40 anos... Apenas trouxe o nosso quarto, como o tínhamos em Paris... Ali está o que ele ia vestir para aquele nosso jantar, que iria ser inesquecível e o culminar de todos os nossos projectos... Faço questão de o ter sempre ali, como se ainda o esperasse para sairmos, de mãos dadas, como sempre fazíamos...Porquê o Porto? porquê este Hotel?? Foi aqui, nesta cidade, que nos conhecemos, que nos vimos pela primeira vez...ele estava junto ao recepcionista a fazer o check-in... Ficamos a olhar um para o outro, não sei se foram segundos, horas ou minutos....Subimos no mesmo elevador, ficamos no mesmo andar, em quartos contíguos... Ainda, e sempre por coincidência, fomos juntos a uma recepção no clube Portuense... Estivemos toda a noite a conversar. No dia seguinte, em que era suposto partir, ficamos mais um dia e depois mais outro....Neste quarto tivemos a nossa primeira noite de amor....e nunca mais deixamos de estar juntos... até àquele dia... De certa forma continuamos juntos... nunca deixaremos de o estar...
Foi a última vez que a vi...
Maria Aurora Pires Marques

Porto - Oporto

Porto - Oporto by @uroraboreal
Porto - Oporto, a photo by @uroraboreal on Flickr.

the man of the black folder

general cleaning

general cleaning by @uroraboreal
general cleaning, a photo by @uroraboreal on Flickr.

orvalho - dew

orvalho - dew by @uroraboreal
orvalho - dew, a photo by @uroraboreal on Flickr.