terça-feira, 8 de junho de 2010

o circo saiu à rua...





Quando eu era pequena quase não havia circos..apenas no Coliseu, no Carnaval...era uma alegria por que esperávamos todos os anos ansiosamente...levavamos os nossos melhores vestidos e sapatos....era festa rija...
...de resto havia os saltimbancos...e como eram divertidos!!...usavam roupas pobrezinhas..rotas ou cosidas..meias uma de cada cor, saias compridas à cigana, chapéus e guarda-chuvas engraçados e coloridos...actuavam entre nuvens de pó, nas ruas, nos largos das aldeias, que ainda n sabiam o que era o empedrado..muito menos o McAdam...os bilhetes eram pagos imediatamente antes do começo...atrasavam sempre, à espera de mais possíveis espectadores...e havia meia dúzia de cadeiras..os fauteillesd'orquestra..a canalha espanhava-se pelo chão...Algumas senhoras mais "importantes" iam de sombrinhas ou de chapéus, até levavam lanche para os filhinhos...à medida que o espectáculo ia decorrendo, iam-se chegando os que n podiam pagar.."furavam" entre as pernas dos espectadores...deitaditos , meios escondidos..a princípio eram escorraçados pelos "seguranças" da altura, que acabavam por desistir..também tinham pena...tinham  nascido no mesmo berço....
Cirquinho geralmente composto por família, ...faziam malabarismo, contorsionismo e de palhaços...tocavam gaitas, tambores e saxofone...até eram eles que faziam de animais...muitas vezes era o Pai que ia de coleira e trela, a quatro patas e o filho aproveitava para cascar...o progenitor e ensaiador respeitado, olhava de lado cheio de cumplicidade.."usa..mas não abuses"...
e os palhaços..os palhaços....a especialidade eram os pums de pó de talco, com a gaita correspondente a tocar na altura certa...choviam gargalhadas e olhares de admiração, misto de vergonha...aquilo nunca se fazia..era feio...proíbido...
Também havia uma anedotas com pequenos meios palavrõezitos de que ríamos à socapa....as roupas eram feitas de farrapos de muitas cores e as pinturas todas esborratadas...espalhavam balões cheios de água, com que borrifavam o públicozinho mais novo..estava calor..era a alegria geral...
os malabaristas caíam e enganavam-se muito...saíam-nos longos e sonoros oooooooooosssssssssss...
eram sempre os mesmos..cada anos conseguiamos ver como tinham crescido e como iam actualizando os seus conhecimentos..alguns não voltavam..eram "pescados" para outros lados..o cirquinho ficava mais pobre..em contrapartida apareciam os artistinhas mais pequenos..iam sendo ensinados à medida que nasciam...mal andavam já faziam macaquices...os mais velhos iam-lhes aparando as asneiras e o público , compreensivo, ou ria, ou fazia de conta que não via..no fim o aplauso era total, clamoroso e todos ficavam felizes....
Anunciavam que "amanhã teremos novo espectáculo, com outros números, mais variedade e novos artistas..as senhoras não pagam..."
...saiamos todos na mais educada das ordens..olhando para trás a ver se, por engano, ainda não tinha acabado...nunca queriamos ir embora....
"Amanhã" havia mais do mesmo....trocariam talvez de roupas uns com os outros...e haveria mais puns de cores e anedotas diferentes..de resto..tudo igual...mas nós queriamos ir todos os dias..era verão... férias...
..se dormires de tarde e te portares bem...pode ser... dizia-me a minha mãe...
Depois contava-me que eram famílias muito pobres, que viviam em barracas e no verão andavam transportados em carros de madeira, alguns com cobertura de ferro e pano entrelaçado, bocados de borracha..nunca se ouvira falar de plástico..quando chovia ou tinham tempo de se abrigar de baixo de qualquer telheiro de passagem ou ficavam encharcados...
Durante os espectáculos, dormiam em pinhais, em barraquinhas montadas, uns por cima dos outros, quando eram mais conhecidos, pediam aos donos das casas mais ricas que os deixassem pernoitar nos celeiros, apenas também para guardarem os animais e os protegerem do tempo... não se ouvia falar de roubos...
Dizia a minha Mãe que comiam caldo de couves e broa com cebola..que eu tinha muita sorte...
...quando dizia: "não quero, não gosto", repetia-me invariavelmente a história dos saltimbancozinhos...
...tenho tantas saudades...

Agora são coisas de filme...ou realidades ainda em muitas partes do nosso mundo "civilizado"....

2 comentários:

Francisco Oliveira disse...

O circo ou os saltimbancos nunca passaram pela minha aldeia quando eu era miúdo.
Mas acredito que seria mesmo como a Aurora o descreve.
Mais uma história muito bem contada.
Parabéns e beijos, Aurora!

eudora disse...

Bonita história!
Em criança,era obrigatório ir ao circo com a família principalmente no Carnaval...Obrigada por me recordar tão bons momentos!