sábado, 19 de junho de 2010

...amar de novo... romance de cordel...






...de repente deu-se como que aero-transportada...
sentiu que estava a ser alvo de atenções...como se estivesse despida...tentou endireitar-se, passou a mão pelo cabelo, pendurou a mala que estava já pendurada no ombro, passou a mão pelo cabelo outra vez e depois pelo colarinho da blusa...recomeçou a andar numa direcção qualquer, como quem sabe a certeza  para onde vai...
..mas n sabia para onde ir... sentia o coração aos pulos e a respiração alterada... a boca muito seca... pensou nas suas melhores amigas, Manuela, Francisca, ou sei lá quem mais, que fariam elas no seu caso?? de repente lembrou-se que nos filmes costumavam abrir uma garrafa de vinho, entrar num bar e pedir um whisky duplo.... mas não..não era um filme... achou que precisava de andar muito, correr, correr...esquecer os seus já quase 60 anos ....não!,  precisava era de se sentar, de parar...lembrou-se que quando precisava de pensar ia ver o mar, ia ver o mar bater nas rochas e abrir em milhares de minúsculas gotas, formando uma imensa nuvem branca que a maravilhava e lhe dava alento...
...primeiro ia beber, beber água primeiro, sim...depois iria para casa, para dentro das suas quatro paredes, o seu pequeno mundo...deu-se conta dum café à sua frente e foi direita ao balção: água.. água bem fria, por favor. Pagou, despejou a garrafa no copo e foi sentar-se na primeira mesa...bebeu dois goles, mais dois e mais dois e mais dois..não estava bem..tinha de sair já dali...
Na rua voltou a endireitar-se..precisava de encontrar um sítio urgentemente..para casa não...não...não iria para lá fazer nada..fazer o quê??Atravessou a rua..mais uma e outra...nada..nenhum sítio..que horror, não se lembrava de lhe ter acontecido semelhante...entrou naquela praça pequenina, da passagem... costumava ver ali umas pessoas sós a darem milho às pombas...naquele momento não estavam, os bancos estavam livres..talvez fosse um bom sítio...Sem esperar mais sentou-se ..respirou fundo...tinha de pousar a carteira, pesava-lhe....encostou-se para trás...as pombas vieram..estavam habituadas a quem se sentava ali lhes dar migalhinhas...que pena..não tinha nada para lhes dar..pensou que um dia voltaria com muito pão...
as pombas perceberam que não havia nada para elas e afastaram-se..voaram...de novo sózinha voltou a encostar-se..cruzou a perna, sempre lhe dera jeito...tinha de parar e pensar...
Centrou-se no momento em que entrara pela primeira vez em casa de Richard, o cumprimentara, perguntara se estava melhor e lhe entregou a resma de papéis que levava para ele..pesavam...foi bom despachar-se daquilo...reparou que andava em casa sem a bengala, tb já o tinha visto no escritório sem ela, mas na rua nunca..chegara a pensar se seria pretenciosismo da parte dele..mas não...maselas do acidente...
...lembra-se da luz, de sentir muita luz a entrar pelas janelas, de estar bem, dele a ter convidado a sentar-se e de lhe perguntar se bebia ou comia alguma coisa..casa de homem só..mas sempre se arranja alguma coisa...disse fluentemente em português .... sento-me só para descansar um bocadinho e agradeceu mas não..tinha de ir a casa a filha, ir ter com genro e as netas, ia lá jantar..era 5f, o costume..ele sabia :- pois, é costume..acrescentou sorrindo que não se estava a lembrar...
- Sento-me um bocadinho só... tem uma casa bem agradável...é quase como se já a tivesse visto, já me falou tantas vezes nela...
...olhou em volta, era mesmo agradável o raio da casa...deu-se conta de que estava a olhar demais e que estava silêncio..demasiado silêncio...Richard à sua frente, num outro sofá, tinha pegado na bengala e estava a olhar para o chão... Achou melhor levantar-se, como se a conversa e o descanso tivessem terminado..vou indo, vejo que está melhor da sua indisposição, que bom ter sido passageira...
-Rosalina... não vá já..não estive doente, estive a pensar...pedi-lhe que trouxesse esses documentos, mas na verdade podia vê-los no escritório... por favor sente-se...
mais silêncio...sentou-se..na beirinha do sofá....depois mais para trás.. . : ...que se iria embora de Portugal??...trabalhava com ela quase há três anos, almoçavam juntos muitas vezes, até já tinham ido ao teatro e à fnac à noite, escolher livros e ver algumas apresentações não só de livros, de poesia, discos...o ano passado tinha ido com ele um bocadinho ao S João, tinham jantado todos juntos várias vezes com a filha, todos, até já com os filhos dele, quando vieram da Escócia para o visitar... se se fosse ia ter pena... sentiu vazio...
...endireitou-se outra vez, como quem faz peito para aguentar o empacto do que vai sair, arranjou a saia, cruzou as mãos no regaço ..e esperou...
- Rosalina...esta situação é uma situação em que estive só uma vez...também não foi fácil..agora também não está a ser...
-Está doente Richard?? posso ajudar nalguma coisa, sabe como sou sua amiga...Vai voltar a Inglaterra??
- não Rosalina, não se trata disso..isso seria fácil, sei que posso contar sempre consigo...Inglaterra não..gosto disto...deste Porto que me mostrou e de que me ensinou a gostar muito..
-...Rosalina...o que queria dizer-lhe..o que queria pedir-lhe...desculpe...tenho de respirar fundo ..
bem, tenho de lhe dizer isto..Rosalina..sou um homem viúvo e só...gosto muito da sua companhia, sempre que penso em tudo que me rodeia, a Rosalina está sempre presente...queria que viesse viver comigo..que aceitasse este meu ombro já não muito novo, mas um ombro amigo...aprendi a amá-la Rosalina...enfim...
acho que me estou a fazer entender...não precisa de responder já....desculpe, é a minha maneira de falar e de sentir...
Rosalina  especada, petrificada e de olhos muito abertos, sentiu que parara o mundo à sua volta..
-... Richard, disse levantando-me um pouco desajeitadamente, tenho de me ir embora..a minha filha...desculpe..tenho mesmo de ir..depois falamos..desculpe....depois falamos...
Depois daquilo lembra-se de pegar na carteira, dirigir-se à porta, tocar no botão de chamada do elevador, e de no mesmo instante, sem tempo para esperar, descer pelas escadas abaixo..ainda ouviu Richard dizer..:- desculpe Rosalina..se calhar fui demasiado bruto....não era minha intenção...
Agora naquele banco Rosalina debruçou-se sobre o peito e pousou a cara nas mãos..que era aquilo? que lhe estava a acontecer??? que fizera para que aquilo acontecesse???
Ficou assim, sem saber por quanto tempo...a pouco e pouco as luzes começaram a acender-se...as lojas a fechar...as pessoas de passo rápido a voltar a casa...a noite descia...estava em paz...
..Acordou com o telemóvel...abriu a carteira..onde estaria ele???nem se lembrava da bolsinha onde sempre o punha...onde estava ele?? onde estava ela???carregou para atender e reparou que passava das 9h da noite...como o tempo tinha corrido..
-desculpa filha..estás preocupada??? desculpa..aconteceu um imprevisto..não sei se tu acharás que foi um imprevisto..não, não..está tudo bem...desculpa....não me aches tola...lembras-te daquelas conversas, aquelas conversas que tu querias ter comigo e que eu nunca quis..que devia refazer a minha vida??? O Richard, tu sabes, o Richard..pediu-me...desculpa..hoje não vou jantar aí a casa....depois ligo-te..não contes comigo..desculpa..beijinhos..beijinhos para todos..especialmente para ti..adoro-te...desculpa....
Levantou-se...calmamente passou a mão pelo cabelo, endireitou a saia e sorriu sózinha...ia para o Guarani..o Richard jantava lá..ia jantar com ele..ia dizer-lhe que sim...se não estivesse lá, ia outra vez lá a casa dele, ia subir no elevador, ia tocar à campaínha...e ia dizer-lhe que sim, que sim..se ele ainda não tivesse chegado, ia sentar-se nas escadas à espera que chegasse..e ia dizer-lhe que sim, que sim..que estava muito feliz....

terça-feira, 8 de junho de 2010

o circo saiu à rua...





Quando eu era pequena quase não havia circos..apenas no Coliseu, no Carnaval...era uma alegria por que esperávamos todos os anos ansiosamente...levavamos os nossos melhores vestidos e sapatos....era festa rija...
...de resto havia os saltimbancos...e como eram divertidos!!...usavam roupas pobrezinhas..rotas ou cosidas..meias uma de cada cor, saias compridas à cigana, chapéus e guarda-chuvas engraçados e coloridos...actuavam entre nuvens de pó, nas ruas, nos largos das aldeias, que ainda n sabiam o que era o empedrado..muito menos o McAdam...os bilhetes eram pagos imediatamente antes do começo...atrasavam sempre, à espera de mais possíveis espectadores...e havia meia dúzia de cadeiras..os fauteillesd'orquestra..a canalha espanhava-se pelo chão...Algumas senhoras mais "importantes" iam de sombrinhas ou de chapéus, até levavam lanche para os filhinhos...à medida que o espectáculo ia decorrendo, iam-se chegando os que n podiam pagar.."furavam" entre as pernas dos espectadores...deitaditos , meios escondidos..a princípio eram escorraçados pelos "seguranças" da altura, que acabavam por desistir..também tinham pena...tinham  nascido no mesmo berço....
Cirquinho geralmente composto por família, ...faziam malabarismo, contorsionismo e de palhaços...tocavam gaitas, tambores e saxofone...até eram eles que faziam de animais...muitas vezes era o Pai que ia de coleira e trela, a quatro patas e o filho aproveitava para cascar...o progenitor e ensaiador respeitado, olhava de lado cheio de cumplicidade.."usa..mas não abuses"...
e os palhaços..os palhaços....a especialidade eram os pums de pó de talco, com a gaita correspondente a tocar na altura certa...choviam gargalhadas e olhares de admiração, misto de vergonha...aquilo nunca se fazia..era feio...proíbido...
Também havia uma anedotas com pequenos meios palavrõezitos de que ríamos à socapa....as roupas eram feitas de farrapos de muitas cores e as pinturas todas esborratadas...espalhavam balões cheios de água, com que borrifavam o públicozinho mais novo..estava calor..era a alegria geral...
os malabaristas caíam e enganavam-se muito...saíam-nos longos e sonoros oooooooooosssssssssss...
eram sempre os mesmos..cada anos conseguiamos ver como tinham crescido e como iam actualizando os seus conhecimentos..alguns não voltavam..eram "pescados" para outros lados..o cirquinho ficava mais pobre..em contrapartida apareciam os artistinhas mais pequenos..iam sendo ensinados à medida que nasciam...mal andavam já faziam macaquices...os mais velhos iam-lhes aparando as asneiras e o público , compreensivo, ou ria, ou fazia de conta que não via..no fim o aplauso era total, clamoroso e todos ficavam felizes....
Anunciavam que "amanhã teremos novo espectáculo, com outros números, mais variedade e novos artistas..as senhoras não pagam..."
...saiamos todos na mais educada das ordens..olhando para trás a ver se, por engano, ainda não tinha acabado...nunca queriamos ir embora....
"Amanhã" havia mais do mesmo....trocariam talvez de roupas uns com os outros...e haveria mais puns de cores e anedotas diferentes..de resto..tudo igual...mas nós queriamos ir todos os dias..era verão... férias...
..se dormires de tarde e te portares bem...pode ser... dizia-me a minha mãe...
Depois contava-me que eram famílias muito pobres, que viviam em barracas e no verão andavam transportados em carros de madeira, alguns com cobertura de ferro e pano entrelaçado, bocados de borracha..nunca se ouvira falar de plástico..quando chovia ou tinham tempo de se abrigar de baixo de qualquer telheiro de passagem ou ficavam encharcados...
Durante os espectáculos, dormiam em pinhais, em barraquinhas montadas, uns por cima dos outros, quando eram mais conhecidos, pediam aos donos das casas mais ricas que os deixassem pernoitar nos celeiros, apenas também para guardarem os animais e os protegerem do tempo... não se ouvia falar de roubos...
Dizia a minha Mãe que comiam caldo de couves e broa com cebola..que eu tinha muita sorte...
...quando dizia: "não quero, não gosto", repetia-me invariavelmente a história dos saltimbancozinhos...
...tenho tantas saudades...

Agora são coisas de filme...ou realidades ainda em muitas partes do nosso mundo "civilizado"....

segunda-feira, 7 de junho de 2010

...cinco minutos de vida ... - ...personagens e factos não reais...











-...olá pá, a que horas chegaste?

-...txau meu..às 4..tava a ber que nunca mais chegaba...não habia peixe...até o mestre deu cabo do caraças das canelas...sangraba que nem um porco...não deu nem pró gasóleo...o gajo já mal pode co ele..debia era ir prá reforma...

-...por acaso o tipo é um gajo porreiro..a nora dele teve ontem um rapaz..nem teve tempo de chegar ao hospital..foi a bizinha, a ti Zeza, que lh'acudiu...

-....pôssa...eu bi a mulher à espera dele..quando lhe disse o gajo até parecia que lebaba água raz..desatou a correr pela biela acima, já nem se debia alembrar das canelas, carago...é o primeiro pilas da família...eram só raparigas!

-...parece que o Ti Manel teve sorte cu' esta mulher...a outra pirou-se e deixou-o com um balente par de cornos...quanto melhor se é, pior...
-...é..esta arremenda-lha roupa e faz-lhe o caldo, parece fixe...e ainda rompe meias solas..o gajo tamem merece pá...por aqui como Mestre, n há igual...

-...trabalhou como um cão tod' a bida...deu ser aos 4 filhos sózinho...teve sorte c'ua irmã... ajudou-le a criar os filhos..baleu-le nas horas de aflição e quanto ele ia p´ra faina...ainda tebe sorte no fim...

-..era..trazia-le as crianças limpas..agora trabalham todos, estão todos bem..mas o home trabalhou que se matou...

-...foi..e inda ficou sem o barco, no desastre, lembras-te???...teve Deus pelo lado dele...morreu-lhe aquele home..o Mário..coitado..ainda deixou 3 filhos....olha que o Mestre nunca lhe desamparou a família..o que dava aos filhos dava aos outros..como ele há poucos...ainda hoje bão ter c'u ele a pedir a benção...tamem são uns gajos porreiros, não desfazendo...

-...é..o gajo merece..lebou uma bida de trabalho..nunca o bi na tasca, nem c'us copos..era só mesmo trabalho, carago...

-...é ... quem me dera que o meu Pai tibesse sido assim...ainda ontem fui a casa e saí logo...o gajo está podre...não faz cá falta nenhuma...a minha mãe é uma desinfeliz....e não merecia...ainda agora o gajo a moi de porrada...um dia passo-me pá...já uma bez foi a minha mulher que me pôs a mão..senão tinha-me desgraçado...a minha mãe é uma Santa ,pá...se não fosse ela já nem lhe olhava p'ró focinho...ainda me diz que é meu Pai, que lhe debo respeito...há gajos que nunca debiam ter nascido...

-..o meu bebe pouco..mas dantes era mau...desancaba-nos de porrada...e à minha mãe, às bezes...a minha mãe sabia lebá-lo...e fugia...o meu tio Júlio tamém lhas cantaba..senão era com'a tua....uma bez, era eu pequeno, andaram à porrada...pôssa....foi a minha mãe que os desapartou ainda por cima..coitada..tamém é uma santa...

-..bou-me pá..este cão é teu???num saiu daqui...

-...é.-. apareceu lá à porta...é bom p´ra dar sinal..quando chego nunca mais me larga...bai comigo p'ra todo o lado....gosto dele..não m'estorba...e brinca c'a canalha...assim fosse muita gente como ele....logo bais ber o jogo???

-... bou pá..bou dezer à minha senhora p'ra fazer o tacho mais cedo...às bezes tamém lhe faço pouca companhia..ela queixa-se...o que bale é que o S. João está à porta...

-...tamem a minha pá...mas um home tamem que há-de fazer??? para onde é que as podemos lebar..ainda o ano passado fomos a Fátima...não dá prá tudo...bamos fazendo o que podemos...

-..olha...haja saúde..até logo Zé..

-até logo Quim... bamos Bobby??? tu é que m'intendes....