terça-feira, 26 de janeiro de 2010

a história que o tempo abafou....

A narrativa e as personagens são ficção....

Eu era bastante pequena..lembro-me de ver minha mãe, com o jornal nas mãos caído no regaço.... as lágrimas bailavam-lhe nos olhos, tinha uma expressão triste e enigmática.........fazia silêncio...eu, inquieta, e não aguentando tanta incerteza, perguntei baixinho porquê, porquê......tentando que a voz lhe saísse normal, a minha mãe perguntou-me se eu me lembrava daquela senhora de idade avançada, que ela sempre cumprimentava e que costumava andar de braço dado com a empregada, também velhinha? e que eu dizia que tinha uns olhos tão brilhantes, quanto os brincos que trazia nas orelhas????..pois morreu, ela e a sua fiel empregada...adormeceram com a lareira acesa..deviam estar a tomar o seu chazinho.....não acordaram mais...e coisa estranha..a casa e a fábrica que era dela e que o capataz da fábrica lhe apanhou, ardeu completamente nessa mesma noite....
Eu sabia que essa senhora tinha estado no colégio interno que pertencera à nossa família, o Colégio das Senhoras Mestras Régias, que tinha tido uma infância abastada, mas nem sempre feliz; que a sua vida, como dizia a minha mãe, daria um romance....anos mais tarde, em casa de umas amigas da minha mãe, durante o costumado chá das 5, que semanalmente faziam em casa de umas e outras, a conversa veio à baila e aos poucos, foram reconstituindo a vida da Isabel ... de seu nome....Isabel de Noronha...
Durante anos não me lembrei mais deste episódio, até que há uns dias passei pelo que resta da casa dessa senhora...e resolvi escrever o que sei dela e da sua vida, da sua história cheia de altos e baixos....
A Isabel nascera em berço de oiro, numa casa senhorial, dentro numa enorme quinta, em que eram precisos vários dias a cavalo para a percorrer...Era a mais nova de três irmãs, todas criadas entre mimos e rendas, no meio de jardins, frequentemente passeando pelas redondezas em charretes puxadas a cavalos brancos a quem as pessoas acorriam para ver e saudar..falamos dos primórdios do sec XX. O pai era um fidalgo e rico abastado, orgulhoso do seu passado liberal, que negociava em madeiras, muitas delas vindas do Brasil, das Índias e de África e outras que haviam sido plantadas na própria quinta....As três irmãs foram educadas no mesmo Colégio, onde para além de aprenderem a ler e escrever, aprendiam também a pintar, a tocar piano, a falar francês, a bordar e fazer renda, e todas as regras de etiqueta, que as preparavam para fazer bons casamentos e a serem umas senhoras completas, como esposas, mães e anfitriães...Passaram a entrada na República sem problemas.
Sabia-se que a Mãe era uma senhora de precária saúde e que os adventos da Grande Guerra viriam a tornar-se fatídicos para ela e as duas irmãs mais velhas. Teresa e Matilde viriam a falecer vítimas da pneumónica e Mãe, agastada pelo desgosto, viria a falecer pouco mais à frente, tuberculosa. Isabel ficou a viver com o Pai e uma tia mais velha e solteirona, que veio viver para casa deles, tentando equilibrar aquela casa sofrida de tanto revés...
É assim, neste ambiente triste e só, que Isabel conhece o homem que viria a ser seu marido: Frederico Menezes, um também abastado homem, de boa figura e crescente fortuna, já na casa dos quarenta, e a quem o pai de Isabel fornecia as madeiras para a sua fábrica de papel. Receoso de um fim próximo e querendo deixar Isabel bem casada e acompanhada para a vida, o Senhor D Eurico manda tirar todas as informações e referências, de modo que a sua agora única filha e luz dos seus olhos, ficasse em boas mãos, para que nunca nada lhe faltasse e que tratasse dos seus negócios e bens.
Isabel casa com 18 anos e vai viver para uma casa que já existia, junto da fábrica de papel do marido, e que entretanto é ampliada e modernizada a expensas e por gosto próprio de D Eurico, rodeada de belos jardins, lagos com cisnes, pontezinhas e pequenas grutas, cheio de cameleiras e rosas de todos os perfumes..tudo para que Isabel fosse muito feliz....
A acompanhá-la a sua criada de quarto, muito pouco mais velha, tinha sido companheira de brincadeiras e dos risos e lágrimas de Isabel, havia já um bom par de anos. Após alguns dias de viagem, cheios de ansiedade e encantamento, com o marido que a acompanha e lhe tenta agradar de todas as formas, chegam ao novo lar. Conta-se que havia vários criados perfilados aguardando a nova Senhora, que a casa estava cheia de flores para a receber, que nunca existira um quarto tão bonito, tão grande, tão cheio de sol! Comunicava com o do seu marido, um quarto não menos soalheiro, mas mais masculino, mais sóbrio mas não menos elegante
Apenas não estava a velha governanta cinquentona, nem a filha, já com os seus trinta anos....estavam doentes e não puderam estar presentes...
No dia seguinte Isabel fez questão, ela própria, de se deslocar aos seus quartos, apresentar-se e saber pessoalmente das suas melhoras, acrescentando que contava com elas para a ajudarem a tratar da casa, como sabia que elas tão bem faziam, sobretudo Efigénia, a mãe, que vinha já do tempo dos pais do marido.
Ainda pouco experiente e desconhecedora dos males do mundo, Isabel não se apercebeu da mal disfarçada forma contrariada como foi recebida, nem dos olhares por baixo, que pensou serem de acanhamento...
Naqueles primeiros tempos foi um rodopio de visitas, de descoberta e de envolvimento na casa, na sua nova vida, no entusiasmo de dar ao seu marido todas as razões e motivos para o fazer feliz e ser também..tinham sido muito difíceis os anos passados....raro era o dia em que n escrevia ao Pai e à tia, dando-lhes conta de todos os mais pequeninos detalhes, das conversas que tinha com o marido e da esperança que tinha na sua nova vida...
Certo dia, passados já dois anos sem que ainda lhe tivesse sido dada a graça de ser mãe, Isabel recebe uma carta da tia, dando-lhe conta de que o pai adoecera e que deveria deslocar-se lá com urgência. O marido e a sua criada de quarto, Leonor, acompanha-a....o Pai está bastante doente, Isabel e Leonor ficam e Frederico regressa....
Isabel volta passados uns meses, de luto pesado..para trás ficou para sempre o Pai, a tia regressou à sua antiga morada e a quinta ficou entregue a um Administrador há muito amigo da família. A casa está estranha e alguma coisa paira no ar....A criadagem vem simpaticamente dar-lhe as boas vindas, respondem que está tudo bem e desaparecem no mesmo instante...Efigénia sai-lhe ao caminho altiva e mal a cumprimentando . De Teresa, a filha, nada...nem aparece Frederico...altas horas da noite, entre sussurros, Isabel julgando ser o marido que chega, mal entreabrindo a porta vê-o cambaleante, amparado pelo capataz Raimundo e o cocheiro..corre para ele e mal lhe chegando, sente já o hálito alcoólico e um estranho cheiro até então nunca sentido.....Preocupada e aflita chama Leonor, que entretanto estava já na cozinha e vem chegando com a mulher do cocheiro, jarros de água quente e toalhas...Quando deitam Frederico este desata a dizer coisas sem nexo, palavrões e vomita naqueles lençóis brancos que a Mãe de Isabel bordara para serem usados em momentos felizes, de paz e amor....Atónita Isabel olha a todos à sua volta em busca de respostas, de razões...Voltam a fazer a cama e lavam Frederico, sem que este faça a menor ideia do que está acontecendo...Isabel pede que lhe ponham um cadeirão junto à cama, manda todos embora e ali fica olhando um marido desconhecido..nem repara em como as lágrimas caem pela cara abaixo de Leonor, nem o seu olhar de pena imensa para a sua Dona Isabel...
No dia seguinte Frederico levanta-se, como se nada fosse, cumprimenta efusivamente Isabel e sai rapidamente para a fábrica, onde muito tinha a fazer...mal sabia Isabel que esta situação começará a repetir-se cada vez mais...
A casa está diferente, os criados estão diferentes...Isabel repara que até alguns biblots mudaram de sítio..sente-se desamparada, triste e só....Confusa e preocupada resolve chamar Efigénia, perguntando-lhe o que se passa, afinal ela era a pessoa que tudo sabia, um esteio daquela casa....e o mundo desabou sobre ela naquele momento...Efigénia, sem pestanejar, sem dó nem piedade, diz-lhe de um só fôlego que a filha estava grávida do patrão, que ia dar-lhe o filho que ela não conseguira dar-lhe e que melhor faria se voltasse para a sua terra....Isabel ficou sem ar, sem pinta de cor...cambaleou para o seu quarto e a pouco e pouco deixou de ver...dir-se-ia que ficara cega....Leonor corre a chamar o marido, que depressa traz o médico..que não conseguiu explicar o que tinha tão jovem senhora, que parecia tão cheia de saúde...certamente o desgosto da morte do Pai....Isabel ficou vários dias sem ver, sem falar, sem conseguir comer nem beber...Leonor não sabia o que se estava a passar, mas sabia que teria acontecido alguma coisa de muito grave....limitou-se a ficou ao seu lado, mantendo-a quente e humedecendo-lhe os lábios , sem nunca arredar pé por um momento sequer....Frederico, a medo, ia permanecendo também a seu lado, indo e vindo da fábrica, perguntando-lhe o que se passava, mas sem obter resposta...uma manhã , bem cedo Isabel chamou Leonor, pediu-lhe que a ajudasse a levantar, que a penteasse e vestisse, e que lhe arranjasse um chá.... tinha começado a ver ....
Mandou chamar Efigénia, pediu a Leonor que se retirasse e perguntou-lhe onde estava a filha e quantas pessoas sabiam do que se estava a passar. Efigénia disse-lhe que a filha estava em casa de uma irmã, que por acaso também trabalhava na fábrica e que estava a par da situação, que sabia o patrão e que havia quem desconfiasse, mas mais nada...Isabel, já senhora da situação, propôs-lhe que o segredo continuasse em troca de protecção que daria à filha, à criança que ia nascer, que arranjasse uma casa para ambas, já que não a queria mais lá ver, que se despedisse com a desculpa de que queria ir viver com a filha para a ajudar, e como condição outra condição, que o marido nunca soubesse daquela conversa tida entre elas....E assim foi, Efigénia saiu e foi viver para uma freguesia próxima....Nesse dia Isabel saiu para o jardim, foi visitar o marido para que ele visse como ela já estava bem, reuniu os empregados para lhes dar conta de que Efigénia, com muita pena dela, tinha pedido para sair, para ajudar a filha que estava grávida e que esperava que tudo voltasse normalidade. Subiu ao seu quarto, dirigiu-se à porta de ligação com o quarto do marido, rodou a chave e guardou-a, para dias mais tarde, durante um passeio pelo jardim, calmamente se afastar até a um poço de rega, cuja água nunca tinha faltado e de que se nunca se vira o fundo, para a atirar e para não mais a ver.......Depois chamou Leonor e desabafou, desabafou, sem deitar uma única lágrima , enquanto que, pelo contrário, Leonor chorava compulsivamente... Era ela que todos os meses ia a casa de Efigénia levar a mensalidade para que mãe e filha estivessem sustentadas e caladas. Frederico nunca quis abrir a porta, ou perguntou pela chave...Teresa confiou-lhe os negócios do pai, já que o julgava capaz de o fazer melhor que ela...O marido nunca mais foi o mesmo...levantava-se tarde, chegava tarde..não aparecia para almoçar, não voltava à noite ou voltava muitas vezes embriagado...valia-lhe o julgado fiel capataz, que a tudo punha mão e que controlava tudo na fábrica. Incapaz de gerir ambos os negócios, e após vários negócios desastrosos, mais um incêndio que destruiu boa parte da casa e do armazém de madeiras, Frederico resolveu vender a quinta que pertencia à mulher, perdendo muito dinheiro e enchendo Isabel de desgosto....Teresa soube mais tarde que fora o amigo administrador que ficara com tudo...Entretanto , com a 2ª guerra mundial, Portugal, mesmo não entrando directamente na guerra, sofre as consequências dela....A fábrica pára a miúdo, não há encomendas, não há dinheiro para pagar aos trabalhadores...Isabel vê-se obrigada a despedir pessoal também em casa.
Entretanto e voltando um pouco atrás, tinha nascido a Teresa um menino, a que deram o nome de Francisco..Isabel quis conhece-lo, quis ser sua madrinha - ele era tão bonito, sem culpa, tão meiguinho para Isabel... ia a miúdo com a tia para a fábrica e Isabel chamava-o para brincar com ele, levava-o para casa e dava-lhe de comer e de vestir, ensinou-o a ler e a escrever, ao mesmo tempo que começou a fazer uns trabalhitos na fábrica....sendo tratado pelo patrão como qualquer outro trabalhador...Frederico, cada vez com pior aspecto, adoece, começa a emagrecer e ficar inchado, passava mal...Isabel acompanhava-o, não lhe faltando com cuidados e companhia...tudo menos carinho...é-lhe diagnosticado um problema de fígado e morre nos braços da mulher, dirigindo-lhe umas últimas palavras de arrependimento e de pedidos de perdão...Teresa ajuda-o a morrer em paz e acompanha-o até ao fim....Com a fábrica quase fechada e com a conta bancária chegando perigosamente ao fim, sem nada perceber de negócios, Teresa chama o capataz para tentar saber o que a espera e o que se deve fazer para reverter o problema - é então que toma verdadeira consciência de que pouco ou nada lhe resta...
Entretanto Francisco, com 17 anos resolve partir para o Brasil, a avó morrera e a mãe, que mal o viu, partira pouco depois do seu nascimento para Lisboa para servir, não se sabendo muito bem como servia e a quem...
Isabel deu-lhe quanto dinheiro pode, para os primeiros tempos, escreveu-lhe algumas cartas de recomendação a conhecidos e amigos seus, para que o menino não se visse lá completamente perdido. Passados alguns meses começou a receber cartas, ainda que espaçadas de Francisco, sempre muito grato e carinhoso - estava a trabalhar no Rio, em casa de uns portugueses conhecidos de Isabel, que muito o estimavam e muito bem tratavam, e que não tendo filhos lhe foram reconhecendo grandes dotes de trabalho, de gratidão, que não deixaram fugir.
Cada vez com mais dificuldades Teresa recebe de Raimundo a pancada final....Propõe-lhe ficar com a casa e a fábrica, dando-lhe para viver uma pequena casa, perto do mar e uma pensão até ao fim da sua vida...senão casa e fábrica iriam a leilão e ficaria sem nada, tantas eram as dívidas...Isabel não tem outro remédio senão aceitar...reúne meia dúzia de móveis, que lhe eram mais queridos e que tinham pertencido aos Pais e parte com Leonor para a casa da praia..já quase nada lhe restava, das jóias de família apenas os brincos que a mãe usara até morrer e que tirara à hora da morte para os pôr, ela própria nas da sua agora única filha, a sua aliança e a do marido e uma cruz que lhe dera o pai quando casara..de resto tudo se fora....até o piano, que tinha desde os 8 anos e onde passara tantas horas a tocar, ora alegre, ora triste..mais triste que alegre...Raimundo ia mandando a mensalidade, muitos meses faltando, muito embora Isabel soubesse que recuperara a fábrica e que a casa voltara a ter o fausto e a grandiosidade de anos atrás, embora a frequência fosse muito má e sem o requinte de outrora....
Francisco continuava a escrever e prometia um dia voltar para a visitar e mostrar a sua numerosa família...Isabel insistia sempre muito, gostava de não morrer sem o ver, pelo menos uma vez mais...O que Isabel não sabia é que não era já Raimundo quem lhe depositava o dinheiro no banco, mas Francisco, a pedido de Leonor, que morria de medo que a sua menina morresse à míngua de pão. Corriam os anos 60..Isabel recebeu um telegrama dando-lhe conta de que Francisco vinha passar o Natal com elas...foram lágrimas, foram flores, risos e exclamações de alegria e amor...Isabel renasceu e Leonor também...Francisco trazia os seus 8 filhos e uma mulher linda e de olhos doces - ficou um mês...mandou ver o telhado e pintou a casa , mandou compor o jardim e a cerca em volta. Comprou uma pilha de madeira para que a sua madrinhinha, como lhe chamava, não passasse frio..
Não sei se alguma vez soube quem era o pai....Isabel nunca soube que era ele que lhe pagava as contas....Depois chegou a hora da partida...Francisco foi, prometendo escrever sempre e voltar dois ou três anos mais tarde.....Isabel,acompanhada de Leonor foi despedir-se deles à estação...ficou de lenço a acenar até que o comboio desapareceu lá muito longe, onde a sua vista já não alcançava...voltaram as duas de braço dado para casa...pareciam duas irmãs....

...o fim já sabem...quando chegou o telegrama de Francisco, dizendo que chegara bem, chegava um outro ao Brasil, dando conta da morte das duas senhoras e de que a casa grande e a fábrica de papel tinham ambas ardido nessa mesma noite, sem razão conhecida.......

6 comentários:

Huguinho disse...

Fazia anos que não lia um romance.

Agora tenho a certeza de onde vem a minha veia artística. Obrigado

Francisco Oliveira disse...

À medida que fui avançando na leitura ia, inconscientemente, convencendo-me de que estava a ler Camilo.
Parabéns, Aurora! Valeu a pena lembrar-lhe que o seu blog merece que lhe dedique algum tempo.

Tozé disse...

Só quem não conhece um bocadinho a Aurora é que ficará completamente surpreendido com este romance tão agradável e genial. È realmente uma Mulher com uma capacidade imaginativa fantástica e com uma veia artística admirável que se estende à pintura e à fotografia.
Qual será a próxima surpresa, talvez um recital de piano na Casa da Musica!
Beijos

Beijos

rosario disse...

Gostei imenso deste pequeno romance! Sempre soube que escrevias bem... mas depois do que li, acho que te deves dedicar mais a esta arte. Muitos escrevem mas a arte de escrever poucos a têm!
Espero que continues a presentear-nos com estes pequenos contos, que me enchem de entusiasmo!

Maria Rego disse...

Querida amiga, fiquei embebida a ler este romance tão bem escrito! Parabéns Aurora, o teu jeito para a escrita não era novidade para mim mas assim...tens o dever de cultivar essa veia de escritora e continuares a deliciar-nos !!!

Bjnhs

setesoles disse...

A vida ten un percorrido moi revirado, non é? Se cadra mesmo ten moitos percorridos, e todo se lle vai en voltas e revoltas. É así e non ten remedio.
Sigo a túa pegada dende o Flickr. Xa me coñeces, logo. Ogallá que o galego non se che faga difícil de entender.