segunda-feira, 11 de outubro de 2010

...diz-me então, filho, conta-me, que fizeste hoje????

- Bom dia Mimi...hoje levantei-me mais tarde...senta Rafa
- Bom dia Manuel..fizeste bem:) há dias em que precisamos de descansar mais...olá Rafa!
- ...hoje custou-me mais calçar as meias..estive para pedir à Filomena..depois lembrei-me do que me disseste...não evitar o que mais nos custa para não perder ainda mais mobilidade...
- é verdade, não te esqueceste...aborrecemo-nos algumas vezes:) tu achavas que não te queria ajudar :)
- é verdade..temos tendência para fazer a nossa vontade e que nos façam também:) -
  ...hoje está um dia bonito, quando compramos esta casa e a escolheste por causa desta varanda virada para o jardim... fizeste bem...na altura tive receio do barulho, de que muita gente se sentaria naqueles bancos a olhar para aqui, mas afinal foi uma boa ideia
- sim, eu sabia Manuel, achei que quando chegassemos a esta idade nos ajudaria a estar menos sós, mais distraídos, que alguém olharia para cima para nos dizer adeus ou perguntar se estavamos bem, como acontece realmente agora com os nossos vizinhos
- tens razão... muitas vezes:) sem ti ia ser pior...
- não ia nada, acabavas por chegar lá sózinho..é o nosso sexto sentido, só isso
- olha Mimi, depois de calçar as meias , pensei que se a Filomena um dia se vai embora ....
- não penses nisso Manuel, ela não vai! mas se fosse os nossos filhos arranjariam outra solução
- eu sei, mas iria causar-lhes mais problemas..custa-me dar-lhes tanto trabalho...
- não penses nisso Manuel, certamente seria uma coisa que eles resolveriam com alguma facilidade
- não sei, não sei....
- claro que sabes...eles sempre nos disseram que não nos preocupassemos, que resolveriam tudo para nós
- mas sabes..estou tão habituado à Filomena...
-Manuel..falamos disto tantas vezes...fizemos a opção de ficar aqui em casa, não foi?? Não queriamos ir para um lar, lembraste??falamos com os nossos filhos e eles tomaram decisões connosco...tomaram e prometeram...e a Filomena também
- tens razão, mas sabes..tenho sempre receio...desculpa, não te quero preocupar...mas também não tenho muito a quem dizer assim isto, não quero dizer aos meninos...
- não me preocupes, quero que me digas sempre o que estás a pensar..quis sempre....
...Sr Silva :- o seu lanche está pronto, quer vir à mesa ou trago aqui???
- ah ...desculpe Filomena, vou à mesa..preciso caminhar...obrigada
- assim o Rafa também vai fazer um xixi lá fora..ele é uma excelente companhia, não sai de ao pé de si
- é verdade Filomena..quando a minha mulher o apanhou fiquei aborrecido... já estavamos velhos, mas realmente ele é um cão delicioso
- qualquer pessoa gostaria de ter um cão assim Sr Silva, todos cá em casa o adoram
- É muito bom saber isso Filomena, saber que ele sempre terá um lar
- ...disso poderá estar sempre descansado, disso e de todo o resto Sr Silva.
- Obrigada Filomena.
...........

- Cá estou outra vez Mimi - a Filomena foi à rua, sempre me trata muito bem...olha...acho que vou passar pelo sono...se não te importas Mimi
- Descansa Manuel, eu fico aqui com o Rafa, vou vendo quem passa...

...........

- ohhh...dormi uns bons 30 minutos, não Mimi??
- sim Manuel, ou talvez mais, estás mais descansado? estiveste tão calmo!!
- sim este soninho a esta hora passou a ser reparador e quase indispensável para mim...
 -Sr Silva, quer que ligue a televisão?? vim aqui quando cheguei da rua mas o Sr estava a dormir tão bem que nem o quis acordar...
- Se faz favor Filomena, daqui a pouco dá o concurso que gosto de ver, tb me ajuda a passar o tempo..
- hoje vem o menino João dormir cá a casa, vou fazer-lhe um bacalhauzinho à Gomes de Sá, como ele gosta
- Obrigada Filomena, sim ele vai ficar contente, já basta o sacrifício que todos eles fazem em vir dormir comigo..têm de deixar  a casa deles...
 - Não diga isso Sr Silva, nunca ouvi o mais pequeno queixume de nenhum deles!! nunca, nunca!!sempre os vejo entrar com muita alegria por aquela porta dentro
- oxalá seja sempre assim Filomena...na minha idade tudo parece simples mas na minha cabeça é muitas vezes complicado - obrigada por tudo Filomena, nunca lhe poderei pagar, nem a si, nem a eles...
-Não fale assim Sr Silva, estou aqui porque quero e porque gosto, também sempre fui muito bem tratada, é a minha segunda casa, eu nunca encontraria outra onde me sentisse tão bem.
- Muito obrigada Filomena , vou ver então o concurso..parecendp que não aviva-me a memória, até me chego a rir às vezes.
-  muito bem Sr Silva, se me dá licença, vou virar já os dois sofás para este lado, depois o menino vem sentar-se aqui consigo quando acabarem o jantar
- Muito bem Filomena, agradeço-lhe
- então até já, vou aprontar o jantar e pôr a mesa
- Estás a ver Manuel??? não tens razão para te preocupares, está tudo bem...

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- olá Filomena!! o meu Pai? está tudo bem?olá Rafa...sempre me vens cumprimentar cão bonito!!!
- olá menino, está sim! porque não havia de estar?? - o seu Paizinho esteve ali a dormitar, como de costume, com o Rafa ao lado e ...a falar com a sua Mãezinha...sabe uma coisa, desde que ele começou a falar com ela, que eu bem oiço, parece mais calmo, mais sossegado...por fim aceitou que ela partiu, talvez..ou então...sei lá...puxou-a para o seu lado e sente-se menos só..vá lá a gente saber...já virei o sofá... penso que ele assim continua a achar que a senhora está ao lado dele....
- ... è verdade Filomena, ele está melhor...ficou mais saudável até, mais esperto....quando o vou cumprimentar, lhe falo do que fiz hoje e depois vamos jantar, ele deixa-me ir à frente, fica para trás...eu percebo-o...pára ao pé do sofá, acaricia-lhe as costas e o braço....e baixa-se como que a beijar a minha mãe..oiço-o a dizer até amanhã...que espere por ele, que ele volta amanhã...fico cheio de pena Filomena... ...também tenho muitas saudades dela...só queremos que o meu Pai esteja bem até ao fim..só nos tem a nós agora...vive para nós....
- Há-de estar menino, há-de estar!!! sempre com o vosso cuidado, todos lhe telefonam todos os dias, muitas vezes passam, o fim de semana é sempre aqui!! ele está bem menino... assim estivessem todos os velhinhos por esse mundo fora...
- Oxalá seja como diz Filomena...ele merece-nos tudo, tudo..bem vou até ao pé dele, até já...
- olá Pai!!então ? o meu beijinho???como passou hoje o dia???
- olá João, meu filho!! passei bem e tu?? conta-me, conta-me como foi o teu dia!!os teus meninos e a Alexandra????ficaram bem?? nem sabes como lhes estou grato por tudo..
- Ora Pai, já sabe que não queremos que diga isso, somos muito felizes aqui consigo!!
- Desculpa filho...se a tua Mãe fosse viva estarimos todos melhor e não vos dariamos tanto trabalho....sinto tanto a falta dela!!!....sabes?? às vezes gosto de pensar que ela está ao pé de mim ainda, até falo com ela e ela parece que me responde, sabes??...mas não quero que penses que estou tolinho filho...sabe-me bem...estou menos só e sinto-me mais perto dela...
- eu sei Pai, não se preocupe, também eu falo sózinho , até imagino que as pessoas estão ao pé de mim!!..
- ainda bem filho, ainda bem que me percebes...mas diz-me então filho, conta-me, que fizeste hoje????
- correu tudo bem Pai!! ....olhe de manhã fui.........

quarta-feira, 18 de agosto de 2010

encontro com o meu pôr-do-sol

Ontem saí para me encontrar com o meu pôr-do sol...da minha janela vi que parecia especial...
..estavam ainda várias pessoas na praia, por isso, meti pés na areia e fui à procura do estar só...
estava uma atmosfera diferente...a verdade é que nunca são iguais...o ar estava carregado e de sol só um bocadinho...por detrás das nuvens, lá do outro lado do mar, ele devia estar a brilhar ainda...
o lado norte estava mais aberto...havia várias camadas de nuvens, a várias alturas e de várias cores ....de longe a longe o azul do céu... alaranjadas, amarelas torradas...cinzentas e negras....as nuvens pareciam uma terra arada, sulcada pela charrua, que a revolvera e lhe abrira as entranhas...e também como que pó arrastado pelo vento... do sol apenas e sempre uma réstea...ao longe um barco...um barco de ouro, num mar dourado...um barco no mar faz sempre a diferença...tanto pode estar a partir, como a chegar.....associo sempre a partida à tristeza e a chegada à alegria...


Gosto de andar pela praia, não gosto de fazer praia...
- quando era pequena ia com a minha Mãe... iamos apanhar beijinhos e conchinhas..havia muitas...eu brincava com as conchinhas, pedrinhas de cores e beijinhos e ela devia pensar nos seus problemas e preocupações....muitas vezes me apercebi que respondia às minhas chamadas de atenção para os meus olha apanhei mais um, com um sorriso..agora acho que era um sorriso distante das minhas conchinhas...



....certa vez, tb num dos nossos passeios, estivemos à espera que o sol, ao pôr-se, coincidisse com um barco que ia a passar...assim foi... e nunca mais me esqueci...só voltaria a ver assim uns anos mais tarde...mas n foi tão bonito...já não tinha aquela mão forte e suava a agarrar a minha.....e se os meus olhos se deslumbraram foi com a recordação, mais que com a visão......
...quando ia passear na praia esperava sempre encontrar alguma coisa especial..nos primeiros anos eram as cochinhas, as pedrinhas e os bejinhos...
depois esperava encontrar uma pedra em forma de coração, quem sabe se um anel perdido arrastado pelas ondas...uma garrafa com uma mensagem de amor...

...agora continuo a procurar o sonho, vivo os meus sonhos... também procuro a paz...o estar só, o sentir-me viva e a mexer, continuo a procurar os porquês, a lavar os meus olhos naquela extasiante imensidão, a sentir a saudade salgada ...
...encontro sempre um momento, uma coisa especial para a minha máquina ..juntas esqueçemos tudo, as horas, o espaço, o cansaço, muitas vezes a dor...  por ali fico até que a noite chegue....
.....regresso sempre a prometer voltar, sempre a olhar para trás...sempre a dizer até amanhã.....


há muito ..muito tempo....




quarta-feira, 14 de julho de 2010

...Pablo....






 Pablo...tenho tantas coisas para te dizer, que nem sei por onde começar..talvez por começando por te dizer o quanto lamento se não te consegui transmitir todo o carinho, toda a admiração, todo o amor que senti e sinto por ti. Por estes quase 12 anos que me aturaste, que me acompanhaste, que me recebeste sempre de braços abertos, esfusiante, mesmo quando já estavas tão doentinho...
sempre me senti, nos sentimos todos, muito orgulhosos de ti, não só porque eras lindo, mas porque te portavas bem, eras afável com toda a gente, com todos os animais, mesmo com aqueles que te eram hostis e te queriam morder.Eras tão obediente..mesmo quando já não ouvias tinhas o cuidado de estar sempre a olhar para nós, para saberes o que devias fazer, perceberes o que te queriamos transmitir...sempre nos percebeste. Seguias-me para todos os lados e deitavas-te aos meus pés, como quem me diz: estou aqui, não estás sózinha.
quando saíamos ias à porta acompanhar-nos como quem diz: vai e volta, eu estou aqui à tua espera. Se iamos se férias sem ti deitavas-te triste ao pé das malas, como quem diz...vais embora sem mim. E quando nos despediamos não abanavas o rabinho nem te levantavas para nos acompanhar....
ainda sinto o teu caminhar, as tuas patinhas atrás de mim pela casa toda..tiveste sempre um ar de cãozinho pequenino, amdavas aos saltinhos e quando abanavas a cauda todo o teu grande corpinho abanava todo, como se só o teu rabinho não nos conseguisse dar a dimensão da tanta alegria que sentias ao ver-nos...
sempre deixaste os teus amigos comerem antes de ti, nunca roubaste nada, sempre foste tão gentil, tão calmo...poderiamos ir contigo até ao fim do mundo, porque sabiamos que te portarias sempre bem e estarias à altura do que esperavamos de ti. Eras um cachorro atento e discreto..sabias quando eu estava triste e vinhas lamber-me como quem diz, estou aqui...tem calma..vai passar...Creio que se contarm pelos dedos de uma mão as vezes que te ralhei...Estiveste ao meu lado até ao último dia..lamento se te falhei nalguma coisa...
foste um cão muito saudável....surpreendeu-te o pior dos males, o pior dos piores...lutaste ao nosso lado todos os dias, por mais um dia, um dia de cada vez...quatro meses, quando te davam no máximo pouco mais de 15 dias....até que nos disseste que já não podias mais...
...ajudamos-te a partir...desejamos que tenha sido no momento certo...
Obrigada Pablo...quem me dera encontrar-te um dia...ficarás para sempre no nosso coração, como uma das coisa mais belas que um dia já tivemos e que será insubstituível....

Até sempre meu Querido...












quarta-feira, 7 de julho de 2010

não gosto do calor...


não gosto do calor, não gosto mesmo!!

baixa-me a tensão... tira-me a vontade de tudo...o meu pensamento ofusca-se e ofusca-me...
sonolenta e absorta entro noutro mundo, na dormência do ontem, do atrás, daqueles fins de tarde dourados, de quando a minha mãe me mandava regar o jardim..da minha preguiça, da chatice..do ram ram...
:- Lolita, as plantas vão morrer de sede...
Sede??? tudo menos de sede...lá ia eu com as minhas sandálias de tiras de couro e fivela preteada..levaram tantas molhas e levaram-me para tantos sítios....afinal eu gostava de regar, de molhar os pés...de ver como passados alguns momentos as flores levantavam o olhar e as folhinhas engordavam e pareciam ficar mais verdes...e o cheiro a terra molhada..molhada e quente..inesquecível....o cheiro das flores, da erva fresca, da alfazema...já os pardalitos procuravam o ninho para dormir...Pirolito!! sai da minha volta, vais ficar todo molhado e depois a Mamã não te deixa entrar!!!
...depois o banho, naquela altura não havia necessidade de aquecer a água...saía quente do depósito..era uma questão de o encher de manhã..bem cedo...a Júlia começava a trabalhar às sete e era às sete que ia dar à bomba para encher os depósitos...qual motor... qual quê???? era boa aquela água, nem quente nem fria....lembro-me de olhar para cima e ver o chuveiro niquelado, preso à parede, lá no alto, os furos eram repuxados para fora... : - tem cuidado para não molhares o chão!!!
...o sabonete era de sedas para o cabelo e de lavanda para o resto..
: - n te esqueças do limão no fim para ficares com o cabelo mais brilhante. Faz bem.
: já tomaste?? seca-te bem! embrulha-me essa cabeça!!veste o robe e calça as pantufinhas, não apanhes frio, senão amanhã estás doente da garganta!! - vê se o chão está molhado...
...um sem fim de recomendações...que aborrecido..todos os dias o mesmo eu já sabia tudo de cor e salteado....
:-Olha!! estás a andar descalça!! ....era tão bom... - amanhã estás doente...
:- embrulha-me essa cabeça na toalha, pus-ta mesmo ao teu lado!! todos os dias tenho de te repetir o mesmo, valha-nos Deus...
:- deixaste o chão todo molhado..nunca tens cuidado...vai buscar o pano do chão e vê bem para não escorregares...olha o que aconteceu à tua prima...
:- veste a camisa de noite  e  o robe branco... vamos jantar na varanda e começa a levantar-se um ventinho..é bom, mas convém não abusares...
...já estava sentada à mesa..naquele tempo os cheiros eram puros..cheirava a comida saborosa e quando passavamos pela fruta ela cheirava...cheirava muito e bem...
:- esqueceste-te de te pentear...que cabecinha essa..falta-te sempre qualquer coisa...
...lá ia eu outra vez para a casa de banho..aproveitava e dava uma vista de olhos..a toalha tinha de ficar bem estendida para estar seca no dia seguinte, o sabonete e a saboneteira limpo e de maneira a ficar seco senão amolecia e estragava-se..
:- não se pode andar sempre a comprar sabonetes, são caros, toma atenção..quando fores grande vais perceber melhor todas estas minhas chamadas de atenção.
...que boa era aquela sopa de vagens e cenourinha miudinha...e aqueles pedacinhos de pão torradinho...
...e aquele guisado de batatinhas com ervilhas, mais cenourinha, couvinha e carne..
...e aqueles moranguinhos pequenininhos e vermelhinhos que eu mesma apanhava do quintal e que os passarinhos teimavam em debicar...está debicado, já não quero!!
:- corta-se esse bocadinho...se está debicado é porque os passarinhos acharam que estava bom, eles sabem melhor que nós!!!

...ficavamos ali até desaparecerem os últimos raios de sol e aparecerem as estrelas..eram tantas!!!..
:- vai apagar a luz, se fazes favor...por causa dos mosquitos e das borboletas castanhas...vou acender uma vela para os afastar...
:- estás a ver os pontinhos de luz lá fora?? são os pirilampos!! ollha os grilos começaram a cantar...gosto de os ouvir lá fora quando não durmo, fazem-me companhia...
:- são quase 10 horas, temos de ir para a cama - vamos ouvir o Teatro Radiofónico, ou será que hoje é dia das"Lendas da Nossa Terra"???? , vem comigo, depois vais para a tua cama, está bem??
...muitas vezes acordava na cama de minha mãe....raramente devo ter acabado de ouvir o Teatro Radiofónico ou as "Lendas da Nossa Terra"...algumas metiam medo..até tapava os ouvidos...a música do começo era tétrica... Mamã...deixa-me ficar aqui contigo!!...

:- Lolita, senta-te e toma o teu pequeno almoço, mas tem cuidado para não sujares a cama....vinha sempre acompanhado do passar-me a mão pela testa e os cabelos... podia ter febre? e daquele beijinho suave, doce e baixinho....


...queria de volta aquele calor daqueles verões..daquele tudo....
....afinal acho melhor aproveitar este d' agora...para me fazer adormentar e fazer recordar...

... pensando melhor acho que afinal até gosto ...




Ana!! olha para mim! :)

sábado, 19 de junho de 2010

...amar de novo... romance de cordel...






...de repente deu-se como que aero-transportada...
sentiu que estava a ser alvo de atenções...como se estivesse despida...tentou endireitar-se, passou a mão pelo cabelo, pendurou a mala que estava já pendurada no ombro, passou a mão pelo cabelo outra vez e depois pelo colarinho da blusa...recomeçou a andar numa direcção qualquer, como quem sabe a certeza  para onde vai...
..mas n sabia para onde ir... sentia o coração aos pulos e a respiração alterada... a boca muito seca... pensou nas suas melhores amigas, Manuela, Francisca, ou sei lá quem mais, que fariam elas no seu caso?? de repente lembrou-se que nos filmes costumavam abrir uma garrafa de vinho, entrar num bar e pedir um whisky duplo.... mas não..não era um filme... achou que precisava de andar muito, correr, correr...esquecer os seus já quase 60 anos ....não!,  precisava era de se sentar, de parar...lembrou-se que quando precisava de pensar ia ver o mar, ia ver o mar bater nas rochas e abrir em milhares de minúsculas gotas, formando uma imensa nuvem branca que a maravilhava e lhe dava alento...
...primeiro ia beber, beber água primeiro, sim...depois iria para casa, para dentro das suas quatro paredes, o seu pequeno mundo...deu-se conta dum café à sua frente e foi direita ao balção: água.. água bem fria, por favor. Pagou, despejou a garrafa no copo e foi sentar-se na primeira mesa...bebeu dois goles, mais dois e mais dois e mais dois..não estava bem..tinha de sair já dali...
Na rua voltou a endireitar-se..precisava de encontrar um sítio urgentemente..para casa não...não...não iria para lá fazer nada..fazer o quê??Atravessou a rua..mais uma e outra...nada..nenhum sítio..que horror, não se lembrava de lhe ter acontecido semelhante...entrou naquela praça pequenina, da passagem... costumava ver ali umas pessoas sós a darem milho às pombas...naquele momento não estavam, os bancos estavam livres..talvez fosse um bom sítio...Sem esperar mais sentou-se ..respirou fundo...tinha de pousar a carteira, pesava-lhe....encostou-se para trás...as pombas vieram..estavam habituadas a quem se sentava ali lhes dar migalhinhas...que pena..não tinha nada para lhes dar..pensou que um dia voltaria com muito pão...
as pombas perceberam que não havia nada para elas e afastaram-se..voaram...de novo sózinha voltou a encostar-se..cruzou a perna, sempre lhe dera jeito...tinha de parar e pensar...
Centrou-se no momento em que entrara pela primeira vez em casa de Richard, o cumprimentara, perguntara se estava melhor e lhe entregou a resma de papéis que levava para ele..pesavam...foi bom despachar-se daquilo...reparou que andava em casa sem a bengala, tb já o tinha visto no escritório sem ela, mas na rua nunca..chegara a pensar se seria pretenciosismo da parte dele..mas não...maselas do acidente...
...lembra-se da luz, de sentir muita luz a entrar pelas janelas, de estar bem, dele a ter convidado a sentar-se e de lhe perguntar se bebia ou comia alguma coisa..casa de homem só..mas sempre se arranja alguma coisa...disse fluentemente em português .... sento-me só para descansar um bocadinho e agradeceu mas não..tinha de ir a casa a filha, ir ter com genro e as netas, ia lá jantar..era 5f, o costume..ele sabia :- pois, é costume..acrescentou sorrindo que não se estava a lembrar...
- Sento-me um bocadinho só... tem uma casa bem agradável...é quase como se já a tivesse visto, já me falou tantas vezes nela...
...olhou em volta, era mesmo agradável o raio da casa...deu-se conta de que estava a olhar demais e que estava silêncio..demasiado silêncio...Richard à sua frente, num outro sofá, tinha pegado na bengala e estava a olhar para o chão... Achou melhor levantar-se, como se a conversa e o descanso tivessem terminado..vou indo, vejo que está melhor da sua indisposição, que bom ter sido passageira...
-Rosalina... não vá já..não estive doente, estive a pensar...pedi-lhe que trouxesse esses documentos, mas na verdade podia vê-los no escritório... por favor sente-se...
mais silêncio...sentou-se..na beirinha do sofá....depois mais para trás.. . : ...que se iria embora de Portugal??...trabalhava com ela quase há três anos, almoçavam juntos muitas vezes, até já tinham ido ao teatro e à fnac à noite, escolher livros e ver algumas apresentações não só de livros, de poesia, discos...o ano passado tinha ido com ele um bocadinho ao S João, tinham jantado todos juntos várias vezes com a filha, todos, até já com os filhos dele, quando vieram da Escócia para o visitar... se se fosse ia ter pena... sentiu vazio...
...endireitou-se outra vez, como quem faz peito para aguentar o empacto do que vai sair, arranjou a saia, cruzou as mãos no regaço ..e esperou...
- Rosalina...esta situação é uma situação em que estive só uma vez...também não foi fácil..agora também não está a ser...
-Está doente Richard?? posso ajudar nalguma coisa, sabe como sou sua amiga...Vai voltar a Inglaterra??
- não Rosalina, não se trata disso..isso seria fácil, sei que posso contar sempre consigo...Inglaterra não..gosto disto...deste Porto que me mostrou e de que me ensinou a gostar muito..
-...Rosalina...o que queria dizer-lhe..o que queria pedir-lhe...desculpe...tenho de respirar fundo ..
bem, tenho de lhe dizer isto..Rosalina..sou um homem viúvo e só...gosto muito da sua companhia, sempre que penso em tudo que me rodeia, a Rosalina está sempre presente...queria que viesse viver comigo..que aceitasse este meu ombro já não muito novo, mas um ombro amigo...aprendi a amá-la Rosalina...enfim...
acho que me estou a fazer entender...não precisa de responder já....desculpe, é a minha maneira de falar e de sentir...
Rosalina  especada, petrificada e de olhos muito abertos, sentiu que parara o mundo à sua volta..
-... Richard, disse levantando-me um pouco desajeitadamente, tenho de me ir embora..a minha filha...desculpe..tenho mesmo de ir..depois falamos..desculpe....depois falamos...
Depois daquilo lembra-se de pegar na carteira, dirigir-se à porta, tocar no botão de chamada do elevador, e de no mesmo instante, sem tempo para esperar, descer pelas escadas abaixo..ainda ouviu Richard dizer..:- desculpe Rosalina..se calhar fui demasiado bruto....não era minha intenção...
Agora naquele banco Rosalina debruçou-se sobre o peito e pousou a cara nas mãos..que era aquilo? que lhe estava a acontecer??? que fizera para que aquilo acontecesse???
Ficou assim, sem saber por quanto tempo...a pouco e pouco as luzes começaram a acender-se...as lojas a fechar...as pessoas de passo rápido a voltar a casa...a noite descia...estava em paz...
..Acordou com o telemóvel...abriu a carteira..onde estaria ele???nem se lembrava da bolsinha onde sempre o punha...onde estava ele?? onde estava ela???carregou para atender e reparou que passava das 9h da noite...como o tempo tinha corrido..
-desculpa filha..estás preocupada??? desculpa..aconteceu um imprevisto..não sei se tu acharás que foi um imprevisto..não, não..está tudo bem...desculpa....não me aches tola...lembras-te daquelas conversas, aquelas conversas que tu querias ter comigo e que eu nunca quis..que devia refazer a minha vida??? O Richard, tu sabes, o Richard..pediu-me...desculpa..hoje não vou jantar aí a casa....depois ligo-te..não contes comigo..desculpa..beijinhos..beijinhos para todos..especialmente para ti..adoro-te...desculpa....
Levantou-se...calmamente passou a mão pelo cabelo, endireitou a saia e sorriu sózinha...ia para o Guarani..o Richard jantava lá..ia jantar com ele..ia dizer-lhe que sim...se não estivesse lá, ia outra vez lá a casa dele, ia subir no elevador, ia tocar à campaínha...e ia dizer-lhe que sim, que sim..se ele ainda não tivesse chegado, ia sentar-se nas escadas à espera que chegasse..e ia dizer-lhe que sim, que sim..que estava muito feliz....

terça-feira, 8 de junho de 2010

o circo saiu à rua...





Quando eu era pequena quase não havia circos..apenas no Coliseu, no Carnaval...era uma alegria por que esperávamos todos os anos ansiosamente...levavamos os nossos melhores vestidos e sapatos....era festa rija...
...de resto havia os saltimbancos...e como eram divertidos!!...usavam roupas pobrezinhas..rotas ou cosidas..meias uma de cada cor, saias compridas à cigana, chapéus e guarda-chuvas engraçados e coloridos...actuavam entre nuvens de pó, nas ruas, nos largos das aldeias, que ainda n sabiam o que era o empedrado..muito menos o McAdam...os bilhetes eram pagos imediatamente antes do começo...atrasavam sempre, à espera de mais possíveis espectadores...e havia meia dúzia de cadeiras..os fauteillesd'orquestra..a canalha espanhava-se pelo chão...Algumas senhoras mais "importantes" iam de sombrinhas ou de chapéus, até levavam lanche para os filhinhos...à medida que o espectáculo ia decorrendo, iam-se chegando os que n podiam pagar.."furavam" entre as pernas dos espectadores...deitaditos , meios escondidos..a princípio eram escorraçados pelos "seguranças" da altura, que acabavam por desistir..também tinham pena...tinham  nascido no mesmo berço....
Cirquinho geralmente composto por família, ...faziam malabarismo, contorsionismo e de palhaços...tocavam gaitas, tambores e saxofone...até eram eles que faziam de animais...muitas vezes era o Pai que ia de coleira e trela, a quatro patas e o filho aproveitava para cascar...o progenitor e ensaiador respeitado, olhava de lado cheio de cumplicidade.."usa..mas não abuses"...
e os palhaços..os palhaços....a especialidade eram os pums de pó de talco, com a gaita correspondente a tocar na altura certa...choviam gargalhadas e olhares de admiração, misto de vergonha...aquilo nunca se fazia..era feio...proíbido...
Também havia uma anedotas com pequenos meios palavrõezitos de que ríamos à socapa....as roupas eram feitas de farrapos de muitas cores e as pinturas todas esborratadas...espalhavam balões cheios de água, com que borrifavam o públicozinho mais novo..estava calor..era a alegria geral...
os malabaristas caíam e enganavam-se muito...saíam-nos longos e sonoros oooooooooosssssssssss...
eram sempre os mesmos..cada anos conseguiamos ver como tinham crescido e como iam actualizando os seus conhecimentos..alguns não voltavam..eram "pescados" para outros lados..o cirquinho ficava mais pobre..em contrapartida apareciam os artistinhas mais pequenos..iam sendo ensinados à medida que nasciam...mal andavam já faziam macaquices...os mais velhos iam-lhes aparando as asneiras e o público , compreensivo, ou ria, ou fazia de conta que não via..no fim o aplauso era total, clamoroso e todos ficavam felizes....
Anunciavam que "amanhã teremos novo espectáculo, com outros números, mais variedade e novos artistas..as senhoras não pagam..."
...saiamos todos na mais educada das ordens..olhando para trás a ver se, por engano, ainda não tinha acabado...nunca queriamos ir embora....
"Amanhã" havia mais do mesmo....trocariam talvez de roupas uns com os outros...e haveria mais puns de cores e anedotas diferentes..de resto..tudo igual...mas nós queriamos ir todos os dias..era verão... férias...
..se dormires de tarde e te portares bem...pode ser... dizia-me a minha mãe...
Depois contava-me que eram famílias muito pobres, que viviam em barracas e no verão andavam transportados em carros de madeira, alguns com cobertura de ferro e pano entrelaçado, bocados de borracha..nunca se ouvira falar de plástico..quando chovia ou tinham tempo de se abrigar de baixo de qualquer telheiro de passagem ou ficavam encharcados...
Durante os espectáculos, dormiam em pinhais, em barraquinhas montadas, uns por cima dos outros, quando eram mais conhecidos, pediam aos donos das casas mais ricas que os deixassem pernoitar nos celeiros, apenas também para guardarem os animais e os protegerem do tempo... não se ouvia falar de roubos...
Dizia a minha Mãe que comiam caldo de couves e broa com cebola..que eu tinha muita sorte...
...quando dizia: "não quero, não gosto", repetia-me invariavelmente a história dos saltimbancozinhos...
...tenho tantas saudades...

Agora são coisas de filme...ou realidades ainda em muitas partes do nosso mundo "civilizado"....

segunda-feira, 7 de junho de 2010

...cinco minutos de vida ... - ...personagens e factos não reais...











-...olá pá, a que horas chegaste?

-...txau meu..às 4..tava a ber que nunca mais chegaba...não habia peixe...até o mestre deu cabo do caraças das canelas...sangraba que nem um porco...não deu nem pró gasóleo...o gajo já mal pode co ele..debia era ir prá reforma...

-...por acaso o tipo é um gajo porreiro..a nora dele teve ontem um rapaz..nem teve tempo de chegar ao hospital..foi a bizinha, a ti Zeza, que lh'acudiu...

-....pôssa...eu bi a mulher à espera dele..quando lhe disse o gajo até parecia que lebaba água raz..desatou a correr pela biela acima, já nem se debia alembrar das canelas, carago...é o primeiro pilas da família...eram só raparigas!

-...parece que o Ti Manel teve sorte cu' esta mulher...a outra pirou-se e deixou-o com um balente par de cornos...quanto melhor se é, pior...
-...é..esta arremenda-lha roupa e faz-lhe o caldo, parece fixe...e ainda rompe meias solas..o gajo tamem merece pá...por aqui como Mestre, n há igual...

-...trabalhou como um cão tod' a bida...deu ser aos 4 filhos sózinho...teve sorte c'ua irmã... ajudou-le a criar os filhos..baleu-le nas horas de aflição e quanto ele ia p´ra faina...ainda tebe sorte no fim...

-..era..trazia-le as crianças limpas..agora trabalham todos, estão todos bem..mas o home trabalhou que se matou...

-...foi..e inda ficou sem o barco, no desastre, lembras-te???...teve Deus pelo lado dele...morreu-lhe aquele home..o Mário..coitado..ainda deixou 3 filhos....olha que o Mestre nunca lhe desamparou a família..o que dava aos filhos dava aos outros..como ele há poucos...ainda hoje bão ter c'u ele a pedir a benção...tamem são uns gajos porreiros, não desfazendo...

-...é..o gajo merece..lebou uma bida de trabalho..nunca o bi na tasca, nem c'us copos..era só mesmo trabalho, carago...

-...é ... quem me dera que o meu Pai tibesse sido assim...ainda ontem fui a casa e saí logo...o gajo está podre...não faz cá falta nenhuma...a minha mãe é uma desinfeliz....e não merecia...ainda agora o gajo a moi de porrada...um dia passo-me pá...já uma bez foi a minha mulher que me pôs a mão..senão tinha-me desgraçado...a minha mãe é uma Santa ,pá...se não fosse ela já nem lhe olhava p'ró focinho...ainda me diz que é meu Pai, que lhe debo respeito...há gajos que nunca debiam ter nascido...

-..o meu bebe pouco..mas dantes era mau...desancaba-nos de porrada...e à minha mãe, às bezes...a minha mãe sabia lebá-lo...e fugia...o meu tio Júlio tamém lhas cantaba..senão era com'a tua....uma bez, era eu pequeno, andaram à porrada...pôssa....foi a minha mãe que os desapartou ainda por cima..coitada..tamém é uma santa...

-..bou-me pá..este cão é teu???num saiu daqui...

-...é.-. apareceu lá à porta...é bom p´ra dar sinal..quando chego nunca mais me larga...bai comigo p'ra todo o lado....gosto dele..não m'estorba...e brinca c'a canalha...assim fosse muita gente como ele....logo bais ber o jogo???

-... bou pá..bou dezer à minha senhora p'ra fazer o tacho mais cedo...às bezes tamém lhe faço pouca companhia..ela queixa-se...o que bale é que o S. João está à porta...

-...tamem a minha pá...mas um home tamem que há-de fazer??? para onde é que as podemos lebar..ainda o ano passado fomos a Fátima...não dá prá tudo...bamos fazendo o que podemos...

-..olha...haja saúde..até logo Zé..

-até logo Quim... bamos Bobby??? tu é que m'intendes....

terça-feira, 26 de janeiro de 2010

a história que o tempo abafou....

A narrativa e as personagens são ficção....

Eu era bastante pequena..lembro-me de ver minha mãe, com o jornal nas mãos caído no regaço.... as lágrimas bailavam-lhe nos olhos, tinha uma expressão triste e enigmática.........fazia silêncio...eu, inquieta, e não aguentando tanta incerteza, perguntei baixinho porquê, porquê......tentando que a voz lhe saísse normal, a minha mãe perguntou-me se eu me lembrava daquela senhora de idade avançada, que ela sempre cumprimentava e que costumava andar de braço dado com a empregada, também velhinha? e que eu dizia que tinha uns olhos tão brilhantes, quanto os brincos que trazia nas orelhas????..pois morreu, ela e a sua fiel empregada...adormeceram com a lareira acesa..deviam estar a tomar o seu chazinho.....não acordaram mais...e coisa estranha..a casa e a fábrica que era dela e que o capataz da fábrica lhe apanhou, ardeu completamente nessa mesma noite....
Eu sabia que essa senhora tinha estado no colégio interno que pertencera à nossa família, o Colégio das Senhoras Mestras Régias, que tinha tido uma infância abastada, mas nem sempre feliz; que a sua vida, como dizia a minha mãe, daria um romance....anos mais tarde, em casa de umas amigas da minha mãe, durante o costumado chá das 5, que semanalmente faziam em casa de umas e outras, a conversa veio à baila e aos poucos, foram reconstituindo a vida da Isabel ... de seu nome....Isabel de Noronha...
Durante anos não me lembrei mais deste episódio, até que há uns dias passei pelo que resta da casa dessa senhora...e resolvi escrever o que sei dela e da sua vida, da sua história cheia de altos e baixos....
A Isabel nascera em berço de oiro, numa casa senhorial, dentro numa enorme quinta, em que eram precisos vários dias a cavalo para a percorrer...Era a mais nova de três irmãs, todas criadas entre mimos e rendas, no meio de jardins, frequentemente passeando pelas redondezas em charretes puxadas a cavalos brancos a quem as pessoas acorriam para ver e saudar..falamos dos primórdios do sec XX. O pai era um fidalgo e rico abastado, orgulhoso do seu passado liberal, que negociava em madeiras, muitas delas vindas do Brasil, das Índias e de África e outras que haviam sido plantadas na própria quinta....As três irmãs foram educadas no mesmo Colégio, onde para além de aprenderem a ler e escrever, aprendiam também a pintar, a tocar piano, a falar francês, a bordar e fazer renda, e todas as regras de etiqueta, que as preparavam para fazer bons casamentos e a serem umas senhoras completas, como esposas, mães e anfitriães...Passaram a entrada na República sem problemas.
Sabia-se que a Mãe era uma senhora de precária saúde e que os adventos da Grande Guerra viriam a tornar-se fatídicos para ela e as duas irmãs mais velhas. Teresa e Matilde viriam a falecer vítimas da pneumónica e Mãe, agastada pelo desgosto, viria a falecer pouco mais à frente, tuberculosa. Isabel ficou a viver com o Pai e uma tia mais velha e solteirona, que veio viver para casa deles, tentando equilibrar aquela casa sofrida de tanto revés...
É assim, neste ambiente triste e só, que Isabel conhece o homem que viria a ser seu marido: Frederico Menezes, um também abastado homem, de boa figura e crescente fortuna, já na casa dos quarenta, e a quem o pai de Isabel fornecia as madeiras para a sua fábrica de papel. Receoso de um fim próximo e querendo deixar Isabel bem casada e acompanhada para a vida, o Senhor D Eurico manda tirar todas as informações e referências, de modo que a sua agora única filha e luz dos seus olhos, ficasse em boas mãos, para que nunca nada lhe faltasse e que tratasse dos seus negócios e bens.
Isabel casa com 18 anos e vai viver para uma casa que já existia, junto da fábrica de papel do marido, e que entretanto é ampliada e modernizada a expensas e por gosto próprio de D Eurico, rodeada de belos jardins, lagos com cisnes, pontezinhas e pequenas grutas, cheio de cameleiras e rosas de todos os perfumes..tudo para que Isabel fosse muito feliz....
A acompanhá-la a sua criada de quarto, muito pouco mais velha, tinha sido companheira de brincadeiras e dos risos e lágrimas de Isabel, havia já um bom par de anos. Após alguns dias de viagem, cheios de ansiedade e encantamento, com o marido que a acompanha e lhe tenta agradar de todas as formas, chegam ao novo lar. Conta-se que havia vários criados perfilados aguardando a nova Senhora, que a casa estava cheia de flores para a receber, que nunca existira um quarto tão bonito, tão grande, tão cheio de sol! Comunicava com o do seu marido, um quarto não menos soalheiro, mas mais masculino, mais sóbrio mas não menos elegante
Apenas não estava a velha governanta cinquentona, nem a filha, já com os seus trinta anos....estavam doentes e não puderam estar presentes...
No dia seguinte Isabel fez questão, ela própria, de se deslocar aos seus quartos, apresentar-se e saber pessoalmente das suas melhoras, acrescentando que contava com elas para a ajudarem a tratar da casa, como sabia que elas tão bem faziam, sobretudo Efigénia, a mãe, que vinha já do tempo dos pais do marido.
Ainda pouco experiente e desconhecedora dos males do mundo, Isabel não se apercebeu da mal disfarçada forma contrariada como foi recebida, nem dos olhares por baixo, que pensou serem de acanhamento...
Naqueles primeiros tempos foi um rodopio de visitas, de descoberta e de envolvimento na casa, na sua nova vida, no entusiasmo de dar ao seu marido todas as razões e motivos para o fazer feliz e ser também..tinham sido muito difíceis os anos passados....raro era o dia em que n escrevia ao Pai e à tia, dando-lhes conta de todos os mais pequeninos detalhes, das conversas que tinha com o marido e da esperança que tinha na sua nova vida...
Certo dia, passados já dois anos sem que ainda lhe tivesse sido dada a graça de ser mãe, Isabel recebe uma carta da tia, dando-lhe conta de que o pai adoecera e que deveria deslocar-se lá com urgência. O marido e a sua criada de quarto, Leonor, acompanha-a....o Pai está bastante doente, Isabel e Leonor ficam e Frederico regressa....
Isabel volta passados uns meses, de luto pesado..para trás ficou para sempre o Pai, a tia regressou à sua antiga morada e a quinta ficou entregue a um Administrador há muito amigo da família. A casa está estranha e alguma coisa paira no ar....A criadagem vem simpaticamente dar-lhe as boas vindas, respondem que está tudo bem e desaparecem no mesmo instante...Efigénia sai-lhe ao caminho altiva e mal a cumprimentando . De Teresa, a filha, nada...nem aparece Frederico...altas horas da noite, entre sussurros, Isabel julgando ser o marido que chega, mal entreabrindo a porta vê-o cambaleante, amparado pelo capataz Raimundo e o cocheiro..corre para ele e mal lhe chegando, sente já o hálito alcoólico e um estranho cheiro até então nunca sentido.....Preocupada e aflita chama Leonor, que entretanto estava já na cozinha e vem chegando com a mulher do cocheiro, jarros de água quente e toalhas...Quando deitam Frederico este desata a dizer coisas sem nexo, palavrões e vomita naqueles lençóis brancos que a Mãe de Isabel bordara para serem usados em momentos felizes, de paz e amor....Atónita Isabel olha a todos à sua volta em busca de respostas, de razões...Voltam a fazer a cama e lavam Frederico, sem que este faça a menor ideia do que está acontecendo...Isabel pede que lhe ponham um cadeirão junto à cama, manda todos embora e ali fica olhando um marido desconhecido..nem repara em como as lágrimas caem pela cara abaixo de Leonor, nem o seu olhar de pena imensa para a sua Dona Isabel...
No dia seguinte Frederico levanta-se, como se nada fosse, cumprimenta efusivamente Isabel e sai rapidamente para a fábrica, onde muito tinha a fazer...mal sabia Isabel que esta situação começará a repetir-se cada vez mais...
A casa está diferente, os criados estão diferentes...Isabel repara que até alguns biblots mudaram de sítio..sente-se desamparada, triste e só....Confusa e preocupada resolve chamar Efigénia, perguntando-lhe o que se passa, afinal ela era a pessoa que tudo sabia, um esteio daquela casa....e o mundo desabou sobre ela naquele momento...Efigénia, sem pestanejar, sem dó nem piedade, diz-lhe de um só fôlego que a filha estava grávida do patrão, que ia dar-lhe o filho que ela não conseguira dar-lhe e que melhor faria se voltasse para a sua terra....Isabel ficou sem ar, sem pinta de cor...cambaleou para o seu quarto e a pouco e pouco deixou de ver...dir-se-ia que ficara cega....Leonor corre a chamar o marido, que depressa traz o médico..que não conseguiu explicar o que tinha tão jovem senhora, que parecia tão cheia de saúde...certamente o desgosto da morte do Pai....Isabel ficou vários dias sem ver, sem falar, sem conseguir comer nem beber...Leonor não sabia o que se estava a passar, mas sabia que teria acontecido alguma coisa de muito grave....limitou-se a ficou ao seu lado, mantendo-a quente e humedecendo-lhe os lábios , sem nunca arredar pé por um momento sequer....Frederico, a medo, ia permanecendo também a seu lado, indo e vindo da fábrica, perguntando-lhe o que se passava, mas sem obter resposta...uma manhã , bem cedo Isabel chamou Leonor, pediu-lhe que a ajudasse a levantar, que a penteasse e vestisse, e que lhe arranjasse um chá.... tinha começado a ver ....
Mandou chamar Efigénia, pediu a Leonor que se retirasse e perguntou-lhe onde estava a filha e quantas pessoas sabiam do que se estava a passar. Efigénia disse-lhe que a filha estava em casa de uma irmã, que por acaso também trabalhava na fábrica e que estava a par da situação, que sabia o patrão e que havia quem desconfiasse, mas mais nada...Isabel, já senhora da situação, propôs-lhe que o segredo continuasse em troca de protecção que daria à filha, à criança que ia nascer, que arranjasse uma casa para ambas, já que não a queria mais lá ver, que se despedisse com a desculpa de que queria ir viver com a filha para a ajudar, e como condição outra condição, que o marido nunca soubesse daquela conversa tida entre elas....E assim foi, Efigénia saiu e foi viver para uma freguesia próxima....Nesse dia Isabel saiu para o jardim, foi visitar o marido para que ele visse como ela já estava bem, reuniu os empregados para lhes dar conta de que Efigénia, com muita pena dela, tinha pedido para sair, para ajudar a filha que estava grávida e que esperava que tudo voltasse normalidade. Subiu ao seu quarto, dirigiu-se à porta de ligação com o quarto do marido, rodou a chave e guardou-a, para dias mais tarde, durante um passeio pelo jardim, calmamente se afastar até a um poço de rega, cuja água nunca tinha faltado e de que se nunca se vira o fundo, para a atirar e para não mais a ver.......Depois chamou Leonor e desabafou, desabafou, sem deitar uma única lágrima , enquanto que, pelo contrário, Leonor chorava compulsivamente... Era ela que todos os meses ia a casa de Efigénia levar a mensalidade para que mãe e filha estivessem sustentadas e caladas. Frederico nunca quis abrir a porta, ou perguntou pela chave...Teresa confiou-lhe os negócios do pai, já que o julgava capaz de o fazer melhor que ela...O marido nunca mais foi o mesmo...levantava-se tarde, chegava tarde..não aparecia para almoçar, não voltava à noite ou voltava muitas vezes embriagado...valia-lhe o julgado fiel capataz, que a tudo punha mão e que controlava tudo na fábrica. Incapaz de gerir ambos os negócios, e após vários negócios desastrosos, mais um incêndio que destruiu boa parte da casa e do armazém de madeiras, Frederico resolveu vender a quinta que pertencia à mulher, perdendo muito dinheiro e enchendo Isabel de desgosto....Teresa soube mais tarde que fora o amigo administrador que ficara com tudo...Entretanto , com a 2ª guerra mundial, Portugal, mesmo não entrando directamente na guerra, sofre as consequências dela....A fábrica pára a miúdo, não há encomendas, não há dinheiro para pagar aos trabalhadores...Isabel vê-se obrigada a despedir pessoal também em casa.
Entretanto e voltando um pouco atrás, tinha nascido a Teresa um menino, a que deram o nome de Francisco..Isabel quis conhece-lo, quis ser sua madrinha - ele era tão bonito, sem culpa, tão meiguinho para Isabel... ia a miúdo com a tia para a fábrica e Isabel chamava-o para brincar com ele, levava-o para casa e dava-lhe de comer e de vestir, ensinou-o a ler e a escrever, ao mesmo tempo que começou a fazer uns trabalhitos na fábrica....sendo tratado pelo patrão como qualquer outro trabalhador...Frederico, cada vez com pior aspecto, adoece, começa a emagrecer e ficar inchado, passava mal...Isabel acompanhava-o, não lhe faltando com cuidados e companhia...tudo menos carinho...é-lhe diagnosticado um problema de fígado e morre nos braços da mulher, dirigindo-lhe umas últimas palavras de arrependimento e de pedidos de perdão...Teresa ajuda-o a morrer em paz e acompanha-o até ao fim....Com a fábrica quase fechada e com a conta bancária chegando perigosamente ao fim, sem nada perceber de negócios, Teresa chama o capataz para tentar saber o que a espera e o que se deve fazer para reverter o problema - é então que toma verdadeira consciência de que pouco ou nada lhe resta...
Entretanto Francisco, com 17 anos resolve partir para o Brasil, a avó morrera e a mãe, que mal o viu, partira pouco depois do seu nascimento para Lisboa para servir, não se sabendo muito bem como servia e a quem...
Isabel deu-lhe quanto dinheiro pode, para os primeiros tempos, escreveu-lhe algumas cartas de recomendação a conhecidos e amigos seus, para que o menino não se visse lá completamente perdido. Passados alguns meses começou a receber cartas, ainda que espaçadas de Francisco, sempre muito grato e carinhoso - estava a trabalhar no Rio, em casa de uns portugueses conhecidos de Isabel, que muito o estimavam e muito bem tratavam, e que não tendo filhos lhe foram reconhecendo grandes dotes de trabalho, de gratidão, que não deixaram fugir.
Cada vez com mais dificuldades Teresa recebe de Raimundo a pancada final....Propõe-lhe ficar com a casa e a fábrica, dando-lhe para viver uma pequena casa, perto do mar e uma pensão até ao fim da sua vida...senão casa e fábrica iriam a leilão e ficaria sem nada, tantas eram as dívidas...Isabel não tem outro remédio senão aceitar...reúne meia dúzia de móveis, que lhe eram mais queridos e que tinham pertencido aos Pais e parte com Leonor para a casa da praia..já quase nada lhe restava, das jóias de família apenas os brincos que a mãe usara até morrer e que tirara à hora da morte para os pôr, ela própria nas da sua agora única filha, a sua aliança e a do marido e uma cruz que lhe dera o pai quando casara..de resto tudo se fora....até o piano, que tinha desde os 8 anos e onde passara tantas horas a tocar, ora alegre, ora triste..mais triste que alegre...Raimundo ia mandando a mensalidade, muitos meses faltando, muito embora Isabel soubesse que recuperara a fábrica e que a casa voltara a ter o fausto e a grandiosidade de anos atrás, embora a frequência fosse muito má e sem o requinte de outrora....
Francisco continuava a escrever e prometia um dia voltar para a visitar e mostrar a sua numerosa família...Isabel insistia sempre muito, gostava de não morrer sem o ver, pelo menos uma vez mais...O que Isabel não sabia é que não era já Raimundo quem lhe depositava o dinheiro no banco, mas Francisco, a pedido de Leonor, que morria de medo que a sua menina morresse à míngua de pão. Corriam os anos 60..Isabel recebeu um telegrama dando-lhe conta de que Francisco vinha passar o Natal com elas...foram lágrimas, foram flores, risos e exclamações de alegria e amor...Isabel renasceu e Leonor também...Francisco trazia os seus 8 filhos e uma mulher linda e de olhos doces - ficou um mês...mandou ver o telhado e pintou a casa , mandou compor o jardim e a cerca em volta. Comprou uma pilha de madeira para que a sua madrinhinha, como lhe chamava, não passasse frio..
Não sei se alguma vez soube quem era o pai....Isabel nunca soube que era ele que lhe pagava as contas....Depois chegou a hora da partida...Francisco foi, prometendo escrever sempre e voltar dois ou três anos mais tarde.....Isabel,acompanhada de Leonor foi despedir-se deles à estação...ficou de lenço a acenar até que o comboio desapareceu lá muito longe, onde a sua vista já não alcançava...voltaram as duas de braço dado para casa...pareciam duas irmãs....

...o fim já sabem...quando chegou o telegrama de Francisco, dizendo que chegara bem, chegava um outro ao Brasil, dando conta da morte das duas senhoras e de que a casa grande e a fábrica de papel tinham ambas ardido nessa mesma noite, sem razão conhecida.......