domingo, 20 de dezembro de 2009

...das minhas histórias de Natal...

..a nossa árvore era de pinho verdadeiro, verdinha e viçosa, muito redondinha para ser bonita, de bolas de vidro multicores, cheias de fios dourados, prateados e muita neve de algodão; as luzes eram velinhas vermelhas colocadas em pequeninos castiçais de molas....aos pés, uma colcha de damasco vermelho, muito musgo e o velhinho presépio metido numa cabaninha de madeira, com uma mangedoura em palhinha onde estava o menino Jesus, muito gordinho, loiro, com os braços abertos ..atrás a vaquinha e o boizinho atentos, prontos a aquecer o menino...a Nossa Senhora, de manto azul pela cabeça, muito linda, olhava-O com desvelo, enquanto o S.José, careca e já entradote nos anos, tomava conta de tudo para que nada perturbasse aquele menino que, diziam, viera ao Mundo para nos salvar..uma estrela de prata com uma grande cauda sobre a cabaninha, assinalava o lugar onde estava Jesus.
Não faltavam os pastores, as ovelhinas e o cão, os reis magos, com os mais belos presentes, o ouro, o incenso e a mirra....mal eles e eu sabiamos, nessa altura, que Ele nunca quereria saber dos bens materiais...viera apenas para mudar o mundo e o tornar melhor....e não tinha conseguido...
....Era o dia da Consoada, da Família....toda a minha Família se juntava: a minha Mãe, a minha Avô, eu e o meu cão Pirolito, companheiro inseparável, que me acompanhava de quarto para quarto, do quarto para a sala, da sala para a cozinha, corríamos à volta da mesa e eu agarrava-me a gritar às saias das minhas duas progenitoras, para que ele não me apanhasse....meu adorado e inesquecível amigo de tantas horas felizes...conhecias-me como ninguém....anos mais tarde até sabias, minutos antes, quando eu ia chegar a casa....Aquelas minhas santas mulheres passavam o dia na cozinha a fazer todos aqueles mimos que iriam estar sobre o aparador da sala até aos reis..frutos secos, as rabanadas, as filhozes e a aletria eram  os meus predilectos..e era tudo feito com tanto carinho!!....
Lembro-me que eram noites muito frias, em que a chuva caía sem parar e o vento assobiava por baixo das portas; tinhamos acesos os radiadores de resistências à mostra e os saquinhos cilindricos de areia   encostados às frinchas debaixo das portas, para evitar que o calor fugisse por lá.
Nesse dia a mesa era posta com toalha e guardanapos de linho, metidos nas argolas de prata, saía o melhor serviço da Vista Alegre, os talheres de alpaca e os castiçais limpos de véspera, enfeitados com azevinho e velas brancas...punham-se 5 lugares à mesa..para nós as três, o meu Avô que fora já chamado para junto de Deus, e para o meu Pai, que estava fora há já uns anos e que era esperado invariavelmente nesse dia, a cada Natal que passava... sem querer, cada batidela de vento na porta principal era para nós uma esperança de que ele poderia estar a chegar de surpresa, para passar connosco aquele Santo Dia da Família....
...nunca veio....
Acabado o bacalhau, levantavam-se rápidamente os pratos, e iamos acender as velas..algumas pegavam fogo às nuvens de algodão e era uma aflição :):):)..naquela altura eram frequentes os incêndios nas casas, que tinham tetos e soalhos de madeira..ouvi falar de tantos..até um velho solar, em frente a mim, ardeu por causa de umas velas que puseram a arder na capela...mais tarde soubemos que fora para irem buscar dinheiro ao seguro..uma  coisa a que poucos tinham acesso ou sabiam que existia ..
No fim das velas acesas e das luzes apagadas ...sempre me mandavam ao quarto fazer qualquer coisa, contrariada porque queria esperar para ver oVelhinho Pai Natal de barbas branquinhas, por quem o Menino Jesus mandava as prendas, mas só para os meninos que se portavam bem...várias vezes, antes dele chegar, tive de pedir perdão às minhas Avó e Mãe, mais ao Menino, pelas maroteiras que fazia..senão..ele passava sem parar e eu ficava sem nada...de todas as vezes era o mesmo, ia ao quarto e quando chegava, o Pai Natal já tinha vindo, pousado as coisas e eu, sempre desapontada e triste, nunca o apanhava.....nem sequer ouvia o trenó a parar à porta da rua, apesar de dizerem que ele sempre tocava vários sinos a anunciar a sua chegada....quando muito ouvia os passos dele pesados já a ir embora....
Lembro-me de receber sempre umas prendas lindas, gostava menos do casaquinho de malha, que afinal a minha Avó também sabia fazer e do casaco comprido que era sempre parecido com um da minha mãe e que tinha desaparecido do guarda roupa, queria era brinquedos....bom era uma boneca e uma caminha parecida com umas que fazia um senhor lá perto, mas em grande, com roupinhas cheias de rendinhas que eu até me parecia ter já visto parecidas nas mãos da costureira que ia lá a casa, uma bacia pequenina cor de rosa com espelhinho e caixinha de pó de talco, para o banho da minha nova filha, um jogo e uma caixa grande de chocolates muito bons, atada com fita de seda e uma tampa linda....A minha Avó e a minha Mãe recebiam sempre coisas muito parecidas todos os anos..luvas, lenços de pescoço, uma camisa de noite ou um robe, sabonetes de lavanda da Ach Brito... o Pai Natal a elas variava pouco....
Entretanto, enquanto eu me ria e divertia com as novas prendas, elas iam arrumar a cozinha, abrir a cama e pôr os sacos de água quente, com as camisas embrulhadas..nesse dia costumavamos dormir as três no mesmo quarto e na mesma cama...e coisa estranha...eu que ficava sempre no meio, estourada com a excitação do dia, com elas viradas cada uma para o seu lado, tinha sempre a ligeira sensação de que estavam ambas a chorar muito baixinho...
Até o Pirolito que dormia na cozinha, nesse dia e a meu pedido, ficava connosco, debaixo da cama....

Durante muitos anos foram assim os meus dias de Natal, Francisco.....

6 comentários:

Portografia disse...

Ler este seu conto foi reviver os meus natais da minha infância. Iguais em tudo, menos nas prendas que não existiam no meu tempo e na casa de lavradores que não eram pobres mas para quem comer uma refeição melhorada já era uma bênção de Deus. Mas também não faziam falta. A família estava junta e amiga e isso era o melhor de tudo.
Bem haja por me ter recordado momentos que comparados com os de hoje pareceriam amargos mas não eram. Eram como eram e sabiam bem.

Francisco Oliveira disse...

Como estava dentro do mail da "portografia" o comentário anterior saíu com autor diferente. Mas é meu.

rosario disse...

Em tom de “brincadeira” ….
A nossa árvore era de pinho verdadeiro, verdinha e viçosa….Hoje temos uma árvore de 5 cm, sem enfeites (pois dá muito trabalho) e já não temos presépio  Temos sim uns autocolantes na janela, vitalícios, alusivos ao Natal. Como se costuma dizer “Natal é quando uma pessoa quer ou Natal é todos os dias”. As noites continuam muito frias, por vezes a chuva cai sem parar e o vento assobia por baixo das portas, mas não só,… também pelas janelas. Ligamos o ar condicionado, mas mesmo assim temos de estar de casaco comprido ou de robe, para evitar uma gripe ou ficarmos cheios de pêlo. No dia da Consoada, a minha mãe supostamente deveria passar o dia na cozinha a fazer todos aqueles mimos que deveriam estar sobre o aparador da sala até aos reis... Mas não, faz o tradicional bacalhau, as rabanadas, a aletria, tudo em frente ao computador pois é uma mulher muito polivalente. Eventualmente, poderá queimar, mas ela não tem culpa pois é tudo feito com muito carinho!!.. À noite, toda a Família se junta: mãe, pai, irmãos, cunhados, etc. No total, somos 12, mais 7 cães e 3 gatos e divertimo-nos imenso durante a ceia. Acabado o bacalhau, levantamos (filhos e cunhados) rapidamente os pratos. Depois, com sorte, podemos ir até ao sofá, que possivelmente estará ocupado pelos animais. Quanto às prendas, nunca se sabe, depende se houve uma “torcidela” de pé ou não. Durante estes últimos anos foram, e com certeza os próximos, assim os meus dias de Natal. Uma coisa vos garanto, são sempre uma agradável surpresa ahahahah!!!

Francisco Oliveira disse...

Gostei do Natal contemporâneo relatado pelo Rosário. Os rituais mudam mas a família continua reunida. E é o melhor.

Francisco Oliveira disse...

mas que sossego por aqui vai...

Maria Rego disse...

Oh...conseguiste comover-me!!!
Com uma família maior, pois éramos e somos cinco irmãos o Natal era parecido com o teu, com a diferença que quem nos dava as prendas era o Menino Jesus (pessoalmente:-)) )!
Que boas recordações!
Bjnhs