sábado, 31 de outubro de 2009

a consertina

um dia descia pela rua...lembro-me de deslizar pelo cinzento, de ver os pequenos lixos espalhado aqui e além e os chiclets brancos entranhados no granito como se fizessem parte da textura das pedras do meu caminho... ..estava num daqueles dias tristes, em que parece que tudo chegou ao fim, que não tens mais nada a fazer e em que até o próprio sol parece estar contra ti, é até indesejável, porque não devia brilhar, que pelo menos ele te entendesse e de alguma forma te acompanhasse em toda aquela imensa tristeza...as lojas fechadas, portas cerradas com as caixas do correio cheias de papeis, cartas que nunca chegarão aos destinatários, de montras sujas e papeis colados das várias imobiliárias que n as conseguiram alugar ou vender e que se foram agregando nas diversas colas, que também colaram o pó e a tristeza da cidade que estava a morrer...
...voltei atrás nos anos, eu saltitava por ali, saltitavam muitas pessoas como eu, mas também havia as outras que se arrastavam, casacos pretos que há muito tinham perdido a forma, com os os bolsos e os ombros descaídos, de quem há muito n tem onde pôr as mãos, apenas um saco de sisal preto de riscas vermelhas e azuis, guardando, se calhar apenas sacos plásticos vazios ou um porta moedas roto, roto de dedos que procuram uma moeda nos fundos, que já lá não está há muito...pensava se viveriam sós, há mais viúvas que viúvos e os homens de dia andam menos pelas ruas, juntam-se mais nos jardins a jogar cartas, pensava comigo, depois vão para casa quando o sol se põe....alguns com um copo a mais, outros a exigir alguma coisa que se comesse, outros partilhando o carinho pelo nada, a dois....
sempre achei que me apercebi de muitas coisas, hoje tenho a consciencia de que me apercebi de muito pouco...
mesmo assim eu voltava a saltitar, vendo as montras coloridas, sentindo-me dentro daquelas roupas lindas, onde eu nunca chegaria..nunca chegaria porque nunca esperei ser rica e se alguma vez o chegasse a ser, iria certamente chegar à conclusão de que nada daquilo me iria fazer mais feliz, ou melhor, ou superior..por isso, de qualquer maneira, não as iria comprar nunca.... 
....uma vez ou outra, eu e a minha amiga de longa data, entramos nas melhores lojas, onde nem sempre fomos bem recebidas, não que não tivessemos bom ar, mas porque tinhamos ar de pobre, e vestiamos algumas peças, miravamo-nos ao espelho e uma à outra e riamo-nos muito, saindo invariávelmente de mãos vazias, porque as peças tinham sempre algum defeito ou não eram bem daquela cor que queriamos....
...mas naquele dia eu teimava em ver mesmo só as pedras da rua, identificava-me com os pequenos lixos, os chiclets esmagados,o sol que teimava em brilhar e me magoava...de repente, sai-me n sei de onde um "ucraniano", com uma consertina desbotada com fitas coloridas, a tocar uma daquelas "musicas de circo", daquelas que tocavam quando os palhaços iam entrar.....aquela música invadiu-me, atingiu-me como um raio de luz, cresceu intensamente dentro de mim, no meu espírito, no meu coração...o mundo parou, a Terra saiu da sua órbita e o Universo ficou pequenino, pequenino, onde só eu cabia...
n sei se ele tocava bem ou mal..fiquei parada a olhar para ele e ele para mim, como se ele estivesse a tocar só para mim... sei que dei uma volta de 180 graus... mudou qualquer coisa , a minha vida mudou para sempre....aquela musica nunca mais me saiu do ouvido... e ligo-a sempre que a quero ou preciso ouvir...
despejei na caixinha do homem o que tinha no porta moedas e agradeci muito, tenho a certeza de que ele percebeu a minha linguagem... não sabia de que outro modo lhe podia agradecer...ainda hoje não sei...há coisas que não se podem pagar nunca...
felizmente tinha bilhete de ida e volta, mas se não tivesse, ia feliz a pé para casa, nem que ela fosse do outro lado do mundo....
obrigada...acho que a vou pôr a tocar mais um bocadinho....

4 comentários:

eduarda disse...

E se calhar bastava entrar e perguntar "e não tem este tecido em cor-de-rosa com bolinhas amarelas?", para sair com uma alegria que tinha o dom de me fazer esquecer pelo menos por algum tempo, uma ou outra tristeza que trazia cá dentro...Essa foi também para mim uma das vezes em que ouvi tocar a conertina...Bons tempos!!!

Beijo e parabens pelo texto!

Francisco Oliveira disse...

Lê-se de um fôlego, fica na memória para sempre! Gosto Aurora!

António Bandeira disse...

uma excelente música!
é incrível como coisas aparentemente insignificantes nos fazem parar para pensar, ouvir e ver bem o que nos rodeia.

rosario disse...

Continua a escrever... pois os teus textos são como concertinas para os meus ouvidos!! bjinhos